Lixo e destruição: o lado esquecido da guerra do Alemão

Victor Moriyama
14.12.2010

Cheguei à Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro, no dia 26 de novembro, dia mais intenso do conflito. Foi naquela manhã de sexta-feira que o Bope apoiado pelos blindados das forças armadas tomou a Vila e, juntos, passaram a controlar também os 44 acessos ao Complexo do Alemão. A atmosfera estava impregnada de tensão, invisível, e, mais concreto, do cheiro do lixo que se acumulava. Durante a guerra, a coleta foi suspensa nas favelas envolvidas. O problema não foi ressaltado na grande mídia, mas também teve efeito devastador.
 

 
 
No sábado, dia 27, começa a tomada do Complexo do Alemão. O Bope sobe na frente usando táticas de guerrilha urbana, enquanto o exército dá retaguarda. Subo o morro escorado nas paredes, seguindo oficiais do Core (grupo de elite da polícia civil do RJ). Já no topo do Alemão, me deparo perplexo com a visão de uma égua e seu filhote comendo de uma grande pilha de lixo. Ao lado, policiais carregam um caminhão com toneladas de maconha apreendida.

O colete a prova de balas e meu equipamento pesa demais após uma tarde sob o sol de 40 graus. Paro para tomar água em um bar. Inacreditável como a vida persiste nas situações mais desfavoráveis. Os moradores tentam manter o mínimo do seu cotidiano. Com medo das balas, atravessam as ruas correndo. No vai e vem, suas sacolas caem e ficam pelo asfalto. Sentado na calçada, vejo mais animais. Dessa vez, porcos catando restos encontrados pelos becos e vielas. As balas rasgam os céus e os bichos, impassíveis, satisfazem o instinto mais básico: a fome.

Crianças tentam chegar às escolas, para encontrá-las fechadas. Moradores embarcam em ônibus lotados em direção ao trabalho. No caminho, são revistados pelos militares. Aos poucos, os veículos queimados pelos traficantes durante a fuga são removidos pelas autoridades. É irreal imaginar que a ocupação poderia ser inteiramente pacífica, mas o grosso da conta financeira das casas quebradas, comércios arruinados e ruas destroçadas pelos tanques e pela retaliação dos bandidos ficou para os habitantes.

À noite no hotel, editando meu material fotográfico, tento com pouco sucesso fazer senso do mar de contrastes que habitam minha mente. Além de enorme e montanhoso, o Alemão faz jus a alcunha de Complexo. Seus moradores, agora, enfrentarão a reconstrução, não apenas física, mas sobretudo moral das suas vidas.

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Victor Moriyama é repórter fotográfico. Cobriu por 4 dias a chamada guerra do Alemão para o diário O Vale, de São José dos Campos.



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3 respostas para “Lixo e destruição: o lado esquecido da guerra do Alemão”

  1. Filipe disse:

    Interessante o relato Moriyama. Gostei muito da foto 11.

  2. bruna disse:

    ótimas fotos!!!! parabéns!

  3. [...] Lixo e destruição: o lado esquecido da guerra do Alemão — Os traficantes foram expulsos, mas os moradores terão que reconstruir suas vidas depois do [...]

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