À beira da inauguração, aterro de Seropédica ainda é polêmico

Fabíola Ortiz
11.04.2011

Universidade Rural (UFRRJ), vizinha e opositora ao aterro de Seropédica. foto: blog Vestibulando

Considerado pelos defensores o projeto mais moderno de aterro sanitário da América Latina, Seropédica receberá 9 mil toneladas diárias de lixo da cidade do Rio de Janeiro. O começo parcial das operações está previsto para maio. Entretanto, a polêmica em torno da sua implementação continua. Há pelo menos oito anos brigam os governos locais e o estadual, a favor, e grupos de Seropédica, que se opõem à sua construção no município. Antes da inauguração, ainda haverá uma audiência pública para debater o assunto na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

O novo aterro substitui Gramacho, em Duque de Caxias, que, além das péssimas condições, está sendo encerrado após extrapolar a sua capacidade. Seropédica é um mega empreendimento de 400 milhões de reais, que será administrado pela Ciclus, que obteve a concessão pública da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) para explorar o serviço. A Ciclus é uma sociedade entre as empresas Júlio Simões e Haztec.

“As obras estão terminando e quando começar a operação, a ideia é erradicar rapidamente os dois lixões de Seropédica e Itaguaí, muito problemáticos, e começar a receber os resíduos desses municípios junto com os da cidade do Rio”, disse a O ECO a superintendente da Haztec, Adriana Felipetto, à frente do projeto.

De lixo à energia elétrica

A meta é fazer da nova central não apenas um local para despejo de lixo, mas para gerar energia elétrica através de biomassa, queimando o metano emanado pela decomposição do lixo. Essa forma de geração de energia não tem impactos negativos sobre o meio ambiente, garante Felipetto. Em Seropédica, a transformação do gás poderá gerar 30 megawatts de eletricidade, o suficiente para iluminar uma cidade com cerca de 100 mil habitantes. Ela também defende que o novo aterro é seguro e usa a melhor tecnologia disponível. Um aterro sanitário para lixo urbano é normalmente feito com argila e uma camada de manto de polietileno de alta densidade (PEAD) resistente a infiltrações. “Seropédica se destaca porque tem um sistema de drenagem e uma tripla cobertura de impermeabilização. Estamos instalando um aterro para resíduos urbanos com um metro de argila compactada, depois uma camada de manta PEAD, areia, argila de novo, eletrodos e ainda outra manta. Ou seja, zero contato com o solo e, além disso, os sensores estarão ligados a um sistema informatizado online em que qualquer vazamento de chorume será detectado e localizado”, assegurou.

Aterro sobre lençol freático

Entretanto, a instalação de um aterro desse porte em Seropédica preocupa a população do município. Um dos focos de resistência se concentra na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde estudam mais de 12 mil alunos e que estará a uma distância de apenas quatro quilômetros do aterro. Professor da instituição, Cícero Pimenteira, economista e doutor em planejamento energético, acredita que “a administração pública escolheu a pior área para instalar um aterro sanitário”, pois lá também está a reserva estratégica de água para o estado do Rio. “O aterro está sobre o aquífero Piranema”.

Apesar das explicações técnicas e tecnológicas de que o lixo não entrará em contato com o solo, Pimenteira é enfático ao levantar a possibilidade de que, em 5 anos (metade da vida útil do aterro), o manto impermeabilizante possa falhar. Se isso acontecer, “o lixo vai comprometer o lençol freático”. Ele descreve como assustador o cenário do lixão de Gramacho, que já deveria ter sido encerrado há mais de 10 anos. Gramacho tem 45 metros de altura de lixo exposto e mais 15 metros que afundou no mangue sem que o solo fosse protegido. “Em Seropédica, nos primeiros 10 anos, a pilha terá 20 metros de altura. A minha pergunta é: o que fazer depois que os eletrodos detectarem o vazamento de chorume no solo e no aquífero? Os acidentes ocorrem a partir do que os engenheiros não puderam prever”, alerta. O alto índice pluviométrico em Seropédica é outro agravante do aterro. “É como se estivéssemos injetando veneno na água para as gerações futuras que a consumirão”. Além disso, lembra, há outros riscos como a proximidade do porto de Sepetiba e da linha férrea, que podem levar a tentativa de burlar a proibição de importar lixo de outros municípios e estados. Para Ana Cristina dos Santos, presidente do sindicato de docentes da Rural (Adurrj), o impacto sobre a universidade e sobre o município é enorme. “Quase mil caminhões circularão pelas vias, uma delas a Rio-São Paulo, que já é precária”, enfatiza. “Serão nove mil toneladas diárias despejadas em Seropédica, um dos municípios mais pobres e de mais baixo IDH do estado”.



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11 respostas para “À beira da inauguração, aterro de Seropédica ainda é polêmico”

  1. Jaína Fernandes disse:

    Que seja o mais moderno aterro sanitário, mas a localização, diante do exposto, não oferece segurança nenhuma. Já imaginou daqui a 10 anos uma pilha de lixo com 20 metros de altura? Mesmo com uma tripla camada de impermeabilização não é segura para longo prazo. Como pode esse aterro sobre um aquífero? Estar próximo de uma Universidade? É um projeto maravilhoso, com possibilidade de gerar energia a partir do gás gerado no lixo e daí? Infelizmente esta polêmica não dará em nada, o aterro está à beira da inauguração. Pobre Brasil!

  2. Edilson Motta disse:

    Nós temos tecnologia 100% Nacional, simples, Ambientalmente Correta, e muitíssimo mais barata que qualquer destas soluções importadas de incineração (que em alguns casos já está sendo banidas de seus países de origem pelo seu baixo rendimento energético, não aproveitamento de resíduos recicláveis e alto índice de poluição atmosférica por gases como DIOXINAS, FURANOS, POLICLORETOS DE BIFENILAS (PCBs) entre outros, e agora tentam nos enfiar goela abaixo como sendo INOVAÇÃO TECNOLÓGICA) e usinas a biogás onde se gera energia com a extração do METANO, mas que o FAMIGERADO LIXO AINDA CONTINUA LÁ ENTERRADO E POLUINDO LENÇOIS FREÁTICOS, NASCENTES E PROLIFERAÇÃO DE VETORES.

  3. Edilson Motta disse:

    Nossa tecnologia obtém aproveitamento energético muito mais eficiente e sem poluição atmosférica ou contaminantes líquidos, com dimensões proporcionais á demanda de cada cidade ou consórcios intermunicipais no caso de municípios muito pequenos com baixa geração de resíduos, QUE INCLUSI ESTÁ SENDO PROSPECTADA POR OUTROS PAÍSES, INCLUSIVE OS ESTADOS UNIDOS.
    A impressão que fica é que no Brasil se faz valer o velho ditado popular; "SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRES", ou seja, “SE NÃO FOR IMPORTADO, CARO E COMPLEXO NÃO SERVE”!

    Edilson Guimarães Motta, 043-9132-3126, Londrina -Pr

  4. Eunice Lima disse:

    Este aterro apesar de ser ecologicamente correto do ponto de vista de impermeabilização, já passa a ser inviável em sua localização por estar muito proximo à população, e pricipalmente a equífero, o qual a longo prazo ser contaminado pelo chorume por lixiviação.

  5. Aldem Bourscheit disse:

    Seropédica também é terra da Flona Mário Xavier, único local onde sobrevive a ameaçada rã Physalaemus soaresi e outras espécies da Mata Atlântica. Pela raridade do animal, a obra do Arco Metropolitano foi devidamente interrompida e ajustada com viadutos.

  6. Silvania disse:

    Se fosse coisa boa não viria para Seropédica.

  7. paulo disse:

    O povo nao sabe a forca que tem. Estes politicos que apoiam esse absurdo, a maioria nao moram em seropedica, possuem residencia na Barra da Tijuca e outros Bairros de luxo, onde eles e seus familiares bebem agua mineral. Estao pouco se impotando pois daqui alguns anos apos ter sugado tudo o que podem do municipio vao embora.

  8. [...] 75% do lixo da região metropolitana. Às vésperas do seu fechamento, e substituição pelo novo aterro sanitário de Seropédica, ainda recebia 2 mil [...]

  9. Maria Gomes disse:

    Sou professora de Biologia no Paraná mas nasci em Seropédica, quando li sobre levarem todo o lixo produzido em todo o Rio pra lá, senti que estão cometendo um êrro com o meio ambiente à longo prazo. Acredito que deveriam selecionar esse lixo e levar somente os recicláveis inorgânicos como garrafas de peti e outros. Antes de tudo, construir uma fábrica de reciclagem, bem longe do centro urbano e dos dos mananciais aquífero.

  10. isabel disse:

    Eu não poderia esperar mais nada, esta atitude, vindo de um bando de criminosos que já estão na metade do 2º mandato e continuam afirmando que a culpa é do abandono do estado por "20 anos" … porque a gente não pede ajuda a ONU por causa do lixo, das enchentes, da guerra civil disfarçada por eles de guerra do tráfico, dos constantes apagões das concessionárias de energia, que pagam comissões altíssimas para continuar cometendo crimes, inclusive as do transporte público, barcas, trens, ônibus e principalmente metrô? Porque o povo não se mobiliza e pede ajuda internacional?

  11. Maria Luzia Ferraço disse:

    Moro no Espírito Santo e estou migrando ´para Seropédia, obtive informações que a cidade é calma e pequena. Como professora tenho que admitir e junta-me aos cidadão dai para que isso não acontece.

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