Bangkok corre risco de afundar

Guardian Environment Network
16.09.2011

Mais de 1 milhão de edifícios estarão ameaçados pelo aumento do nível do mar, foto: Mr.Wood

Entre os desafios prementes enfrentados pelo novo governo da Tailândia, eleito em julho, está o fato de que a cidade está, aos poucos, afundando. As previsões mais pessimistas sugerem que partes da capital tailandesa poderão estar debaixo da água até 2030, mas, apesar disso, especialistas apontam a falta de uma política clara para evitar o desastre iminente.

Vários fatores – como as mudanças climáticas, o aumento do nível do mar, a erosão costeira e o deslocamento do solo argiloso­ – ameaçam a  cidade sobre o delta do rio Chao Phraya, fundada em 1782 pelo primeiro monarca da dinastia Chakri, família ainda no poder. A população aumentou consideravelmente, com cerca de 10 milhões de pessoas atualmente vivendo na cidade e nos subúrbios. Até mesmo o peso dos arranha-céus, cujo número não para de crescer com a conurbação, contribui para a imersão gradual de Bangkok. Parte da metrópole está, hoje, abaixo do nível do mar e o chão está afundando de 1,5 a 5 centímetros por ano.

De médio a longo prazo, mais de 1 milhão de edifícios estarão ameaçados pelo aumento do nível do mar, dos quais 90% são residenciais. De acordo com o Instituto Asiático de Tecnologia, os pisos térreos desses prédios poderão sofrer 10 centímetros de inundação em algumas épocas do ano. No porto de Samunt Prakan, cerca de 15 quilômetros a jusante da capital, os moradores de casas isoladas ao longo do rio já passam vários meses do ano com água no nível dos seus tornozelos.

Um estudo publicado em dezembro pelo Banco Mundial em parceria com o Asian Development Bank e com a International Co-operation Agency, do Japão, destacou a ameaça que as mudanças climáticas representariam para três megacidades: Bangkok, Ho Chi Minh e Manila. De acordo com Jan Bojo, especialista do Banco Mundial, a exploração ilegal de água subterrânea é uma das causas dos infortúnios da cidade. Nem todos endossam o seu ponto de vista, mas outros estudiosos concordam que essa situação deve piorar ainda mais nos próximos anos. Smith Dharmasaroja, chefe do National Disaster Centre, prevê que até 2100 Bankok terá se transformado na nova Atlantis.  E as previsões de Dharmasaroja são levadas a sério: nos anos 90 ele anteviu o tsunami que devastou países em torno do oceano Índico em 2004.

Dharmasaroja afirma que “nenhuma decisão foi tomada” pelo governo para “reverter o problema”. E ainda completa que, se nada for feito, Bangkok pode estar debaixo d’água até 2030. Uma das soluções sugeridas por ele é construir uma série de represas ao longo da costa do Golfo da Tailândia, um projeto que custaria mais de 2 bilhões de dólares. Ele diz que o trabalho deveria começar imediatamente, caso contrário, será tarde demais para impedir a cadeia de eventos que podem levar a um desastre.

Anond Snidvongs, oceanografista e especialista nos impactos das mudanças climáticas no sudeste da Ásia, adota uma linha mais cautelosa. “Ninguém pode prever quanto tempo levará para que Bangkok seja inundada e como esse processo de desenrolará”, afirma. Ele não vê sentido em construir grandes represas. “O aumento do nível do mar não é tão grande e as mudanças climáticas desempenham um papel relativamente pequeno – cerca de um quinto do cenário atual”, acrescenta. “É inútil”, ressalta, “tentar proteger o litoral, que está sendo erodido de três a quatro centímetros por ano. Mas há muitas maneiras de combater a inundação, como implantar uma melhor gestão dos terrenos para construção na cidade”.

Niramon Kulsrisombat, urbanista e professor de planejamento urbano e regional na Chulalongkorn University, confirma que “enchentes sempre ocorreram, já que Bangkok foi construída sobre um terreno encharcado 1,5 metro abaixo do nível do mar”. Uma rede de khlongs (canais), campos e loteamentos costumava absorver as enchentes, mas, com a urbanização recente, muitos edifícios tomaram o seu lugar e agora a água fica presa.“Os esforços do governo têm sido direcionados ao levantamento de barreiras de 2,8 metros ao longo de vários trechos do Chao Phraya”, explica Kulsrisombat, “mas isso causou ainda mais estrago à aparência tradicional de uma localidade em que a população morava em palafitas”.

Snidvongs acredita que o fator-chave para salvar a cidade é coordenar medidas. “É absolutamente necessário alcançar um consenso para que esse um milhão de pessoas, ou mais, que será diretamente afetado pela inundação a médio e longo prazo possa chegar a um acordo em relação aos princípios que sustentam todas as soluções”, afirma.

Resumindo, os cientistas que gastam seu tempo examinando Bangkok devem aprimorar seus diagnósticos para se preparar melhor para o resgate da capital tailandesa.

 

* ((o))eco publica esse artigo como membro da Guardian Environment Network. Ele saiu inicialmente no Guardian, em 13/9/2011.

 

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Porque Fukushima despreocupou e me fez adorar energia nuclear

Guardian Environment Network
29.03.2011

Linhas de transmissão sainda de usina nuclear em Suffolk, UK - foto: Rodney Burton

 

por George Monbiot*

 

Você não se surpreenderá em saber que os acontecimentos no Japão mudaram meu ponto de vista sobre energia nuclear. Vou surpreendê-lo pela direção em que mudei de opinião. Em consequência do desastre de Fukushima deixei de ser neutro em relação à energia nuclear. Agora, eu apoio essa tecnologia.

Uma velha usina, de quinta categoria, com mecanismos de segurança inadequados foi atingida por um extraordinário terremoto seguido de vasto tsunami. O fornecimento de eletricidade falhou e derrubou o sistema de refrigeração. Os reatores começaram a explodir e derreter. O desastre expôs a situação típica de projeto ruim e economias porcas na sua operação. Mesmo assim, pelo menos até agora, ninguém ainda recebeu uma dose letal de radiação.

Alguns verdes exageraram absurdamente os perigos da poluição radioativa. Para uma avaliação mais clara, olhe o gráfico publicado pelo site xkcd.com. Ele mostra que no desastre de Three Mile Island a dose média que atingiu as pessoas vivendo em um perímetro de 16 km do vazamento foi 1/625 avos do máximo anual permitido nos EUA para trabalhadores que lidam com radiação. Esta dose, por sua vez, é metade da menor dose claramente ligada a um aumento de risco de câncer. E, finalmente, essa última é igual a 1/80 avos de uma dose fatal. Não estou aqui propondo que sejamos complacentes. Quero propor que tenhamos perspectiva.

Se outras formas de produção de energia não causassem danos, esses impactos teriam outro peso. Mas energia é como medicina: se não houver efeitos colaterais, a maior chance é que o remédio não funcione.

Como a maioria dos verdes, eu apoio a expansão de fontes renováveis. Também entendo as reclamações dos seus oponentes. Não são apenas as turbinas eólicas terrestres que incomodam as pessoas, elas também demandam mais infraestrutura de distribuição de energia, como cabos e postes. Para manter as luzes acesas, à medida que a proporção de energia elétrica renovável se expande, a necessidade de estocá-la também cresce. Isso significa mais reservatórios nas montanhas, os quais não são nada populares.

Os impactos e custos das renováveis aumentam com a sua fatia na geração total de energia, pois a necessidade de armazenamento e redundância aumenta. É bem capaz que seja o caso (não vi ainda surgir nenhum estudo comparativo a respeito) de que até um certo ponto – 50% ou 70%, talvez? – as renováveis tenham um impacto menor sobre a geração de carbono do que a nuclear. E, a partir daí, a nuclear tenha um impacto menor do que as renováveis.

Como outros, defendo o uso das renováveis para substituir a eletricidade gerada através de combustíveis fósseis e para suprir as necessidades de expansão do fornecimento, substituindo o óleo usado nos transportes e o gás utilizado para aquecimento no inverno. Mas devemos também exigir que as renováveis substituam a capacidade de geração nuclear instalada? Quanto mais esperarmos das renováveis, maior será o seu impacto sobre a paisagem e mais duro será convencer o público a aceitá-las.

Mas expandir a infraestrutura de distribuição para conectar as pessoas e a indústria a fontes abundantes de energia natural foi uma alternativa rejeitada pelos verdes que reagiram ao meu post recente, no qual argumento que a energia nuclear é mais segura do que o carvão. O que eles disseram querer é algo bem distinto: devíamos diminuir o consumo de energia e produzi-la localmente. Alguns chegaram a argumentar que devemos abdicar da infraestrutura de distribuição de eletricidade. Essa visão bucólica é adorável, até você se dar conta dos detalhes.

Em latitudes tão ao norte, como a nossa, a maior parte da tecnologia de geração em pequena escala é inviável. Gerar energia solar no Reino Unido envolve um fantástico desperdício de recursos escassos. É de uma ineficiência total, além de ser difícil de conciliar com os horários de pico de consumo. Energia eólica em áreas densamente habitadas dificilmente é possível. Parte é consequência de termos construído nossas cidades em lugares protegidos e, parte, devido a interferência que os prédios causam no fluxo de ar. Micro hidroelétricas podem funcionar em uma fazenda no País de Gales, mas não em Birmingham.

Como abasteceríamos nossa indústria têxtil, fornos de tijolos e ferrovias elétricas? Isso para não falar de processos industriais avançados. No momento em que você considera a demanda total da economia, acaba o seu amor pela produção local de energia. Uma boa infraestrutura de distribuição nacional (ou, melhor ainda, internacional) é o pré-requisito essencial para o fornecimento de energia renovável.

Existem verdes que vão ainda mais longe: porque desperdiçar recursos renováveis usando-os para produzir eletricidade? Por que não podemos usá-los diretamente para gerar energia? Para responder essa questão, dê uma olhada no funcionamento da Inglaterra antes da Revolução Industrial.

Represas e açudes nos rios britânicos usados para mover moinhos eram um exemplo de tecnologia em pequena escala, renovável, pitoresca e devastadora. Bloquear rios e assorear suas áreas de desova ajudou a acabar com as gigantescas migrações de peixes que, um dia, foram um dos nossos maiores espetáculo naturais e fontes de alimentação – extinguindo espécies como o esturjão, a enguia de água doce e o sável, como também o salmão e a maior parte das trutas marítimas.

O uso de tração animal estava diretamente ligado à fome. Quanto mais terra era separada para alimentar animais de tração para a indústria e o transporte, menos havia disponível para alimentar humanos. No século 17, essa tendência foi o equivalente à crise atual provocada pelos biocombustíveis. O mesmo se aplica ao combustível usado para aquecimento. E. A. Wrigley destaca no seu livro Energy and the English Industrial Revolution (Energia e a revolução industrial inglesa),  que os 11 milhões de toneladas de carvão extraídos na Inglaterra em 1800, caso fossem substituídos por madeira, exigiriam 11 milhões de acres ocupados por florestas, o equivalente a um terço do nosso território.

Antes do carvão se tornar amplamente disponível, a madeira não era usada apenas para aquecer residências, mas também para processos industriais: se a metade da superfície da Inglaterra fosse coberta de florestas, mostra Wrigley, poderíamos produzir 1,25 milhões de toneladas de ferro por ano (uma fração do consumo corrente) e nada além disso. Naquela época, mesmo com uma população muito menor do que a atual, bens manufaturados e a economia baseada em recursos advindos da terra eram reservadas à elite. Energia radicalmente verde – decentralizada e baseada em produtos do solo – é muito mais danosa à humanidade do que um acidente atômico.

Mas a fonte de energia da qual a maior parte das economias dependerá, caso fechem suas usinas atômicas, não é madeira, água, vento ou sol, mas sim combustível fóssil. Sob qualquer medida de impacto (mudança climática, danos de mineração, poluição local, acidentes de trabalho/mortes na indústria e até descargas radioativas), carvão é 100 vezes pior do que energia nuclear. E graças à expansão do gás extraído de xisto, os impactos ambientais do gás estão aumentando rapidamente.

Sim, continuo detestando os mentirosos que comandam a indústria nuclear. Sim, eu preferiria ver o setor inteiro ser fechado, se houvessem alternativas que não causassem danos. Mas não existem soluções ideais. Todo tecnologia energética traz o seu custo; e deixar de usá-las também tem custo. A energia atômica acabou de passar por um dos mais duros testes possíveis, e o impacto sobre as pessoas e o planeta foi pequeno. A crise de Fukushima me converteu à causa nuclear.

 

* ((o))eco publica esse artigo como membro da Guardian Environment Network. Ele saiu inicialmente no Guardian, em 21/3/2011.

 

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Por um futuro verde e seguro, sem energia nuclear

Ricardo Baitelo
28.03.2011

Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ), foto: Rodrigo Soldon

O acidente nuclear em Fukushima vem mais uma vez, a exemplo do ocorrido em Chernobyl (1986) e do não tão distante vazamento de Césio – 137 na cidade de Goiânia (1987), expor à sociedade brasileira o problema da falta de segurança da energia nuclear. Na carona desta discussão internacional, cresce o debate sobre a expansão das energias renováveis, que emitem uma baixa quantidade de gases estufa e, ao contrário da energia nuclear, não oferecem riscos de acidentes de proporções irreversíveis.

Contrariando o argumento de que o Japão é um país sem outras opções de fontes energéticas além da nuclear, o Greenpeace lançou em 2008 a versão japonesa do relatório Revolução Energética, com previsões de como o país pode ter sua matriz energética 60% renovável nos próximos 40 anos. Para isto, bastaria focar seus investimentos em eólica, biomassa, geotérmica e solar. Graças a seu alto potencial para eficiência energética, o Japão pode também diminuir seu consumo em 53% nos próximos 40 anos.

A contrapartida de optar por este caminho seria uma redução de 77% de emissões de CO2 até 2050, economia e geração de empregos sem que nem mais uma poeira radioativa ameaçasse a população da ilha. Pelas projeções do relatório, o último reator nuclear daria adeus ao país até 2045.

No Brasil as condições naturais são ainda mais favoráveis. O potencial brasileiro eólico e solar mal começou a ser explorado – o de vento poderia atender ao triplo da demanda energética atual do país e o de sol a vinte vezes o que se precisa de energia hoje. A biomassa também poderia contribuir para esta transformação se o potencial energético de nossos canaviais, equivalente ao de duas hidrelétricas de Itaipu, fosse aproveitado. Hoje a falta de uma lei nacional que incentive o uso de renováveis impede que este e outros planos renováveis se tornem realidade.

Enquanto isto, nosso governo insiste em um modelo de desenvolvimento que não preza pela segurança da população. Prova disto é que as atividades de regulação e fiscalização do setor são contraditoriamente concentradas em um mesmo órgão, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, conhecida pela sua má atuação no acidente de Césio 137 e sem competência para operar em um eventual acidente nuclear de grandes proporções. Tal modelo de governança na área nuclear apenas se repete em três outros países do mundo: Irã, Coréia do Norte e Paquistão, países que não primam por um relacionamento democrático com sua sociedade.

Além dos impactos ambientais e sociais, é importante salientar que a geração nuclear já é uma das formas mais caras de energia e deve ter seu custo reavaliado em face da revisão de critérios de segurança de reatores e depósitos de rejeitos, bem como a real mensuração de seguros contra acidentes.

O debate precisa ir além das escolhas governamentais de planejamento. É hora de abrir a discussão para a sociedade, que deve decidir, de forma democrática, livre e pluralista, que opção de desenvolvimento deseja para o seu país. O Brasil tem tudo para construir um futuro verde, limpo e seguro. O que estamos esperando para dar este passo?

 

*Ricardo Baitelo é coordenador de energia renovável do Greenpeace Brasil

 

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Japão: Agora o risco nuclear

Sérgio Abranches
15.03.2011


 
Japão entra em fase de alto risco nuclear. Há perigo iminente de derretimento do núcleo do reator 3 de Fukushima. É um risco sério. Mas ainda se parece mais com Three Mile Island, do que com Chernobyl. Entretanto, há uma regra de outro para análise de risco de desastres e para a cobertura de desastres: desastre nunca segue o roteiro previsto ou imaginado. Sempre há o inesperado. No caso do Japão, o inesperado foi o grau de intensidade do terremoto, 8.9 ou 9.0 na escala Richter, a violência do tsunami que se seguiu, a decorrente perda de controle sobre os sistemas auxiliares de geração de energia e do sistema de refrigeração do núcleo do reator.

São seis as usinas em perigo. A maior fonte de preocupação é a unidade 3 de Fukushima, que sofreu uma explosão de hidrogênio nessa segunda. Ela tem uma mistura de óxido de plutônio e urânio (MOX), que segundo os cientistas que estudam processos em usinas nucleares de água leve agravam as consequências de acidentes severos nos quais grandes quantidades de gás radiativo e aerossóis são liberados no ambiente externo. Isso porque o combustível de tipo MOX contém maior quantidade de plutônio e outras substâncias, chamadas actinídeos, como o amerício e o cúrio que têm alta rádio-toxicidade.

O núcleo com material radiativo é resfriado a água, que deve cobrir inteiramente, o tempo todo, as barras com pastilhas de material nuclear. O que aconteceu é que a água na cápsula de segurança da unidade 3 baixou três metros, deixando as barras a descoberto, o que provoca aquecimento muito perigoso. Eles bombearam água do mar na cápsula, o que é uma medida extrema, porque ela é corrosiva e pode destruir o reator. Mas o medidor indicou que a água parou de subir e deixou 2 metros das barras a descoberto. Eles não sabem se é erro de medição ou se água realmente não subiu e as barras estão expostas. A queda no nível de água ocorreu mais de uma vez. Risco muito alto. O maior perigo é uma reação nuclear fora de controle, que poderia derreter a base de concreto da cápsula e produzir um grande desastre nuclear. Nesse momento não se pode descartar a possibilidade, embora a probabilidade seja baixa. Questão chave agora é saber se os operadores conseguem manter a cápsula de segurança intacta e controlar, isolar e conter o material radiativo, para evitar a dispersão de radioatividade pelo ambiente.

O que chama atenção nesse caso é o seguinte: o Japão tem um dos melhores índices de qualidade de segurança, tecnologia de construção resistente a terremotos e prevenção e prontidão em desastres. Mesmo assim, se mostrou muito falível e vulnerável. O grau de controle sobre o que se passa na cápsula de segurança é menor do que se poderia imaginar. A possibilidade de falhas é real. E houve falhas. As ações de gestão de risco têm sido em tempo adequado e as medidas são exatamente as indicadas pelos cientistas para casos como este. Mas o inesperado sempre acontece. Quando foram construídas as usinas nos anos de 1970, nem se imaginava a possibilidade de um terremoto de 8.9-9.0 graus. Foram construídas para resistir a abalos de 7.5.

Houve falhas importantes de comunicação com a mídia e com as comunidades. Mas, a defesa civil e o serviço de segurança nuclear mostraram que têm, de fato, alto padrão de qualidade. Mesmo assim, nem os operadores, nem as autoridades do setor de energia nuclear do país têm absoluto controle sobre o que se passa nas instalações afetadas.

O mundo todo está apreensivo. O incidente no Japão, considerado referência em segurança civil, correndo o risco de se tornar palco de sério acidente nuclear, põe em questão todos os protocolos de segurança em uso por toda parte. A governança nuclear está em cheque. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, determinou revisão de segurança imediata em todos os reatores do país. A oposição à energia nuclear aumenta no mundo todo.

No Brasil temos ainda mais razões para apreensão. O ex-ministro do Meio Ambiente de Lula, Carlos Minc, atual secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, lembrou ontem em seu Twitter que há 25 anos teve “de ganhar ação na Justiça Federal para obrigar Angra 1 a fazer plano de contingência e emergência”. A questão não é apenas de tecnologia nuclear. É também de capacidade de governança, em todos os níveis, desde a qualidade da regulação, até a capacidade de ação dos governos federal, estadual e municipal, no caso de um acidente. Basta lembrar o número de perdas e as dificuldades de resgate que um deslizamento relativamente pequeno por causa de chuvas fortes causou em Ilha Grande, Angra dos Reis, no final de 2009.

No Japão há treinamento sistemático e disciplinado, com exercícios frequentes de toda a população, para cada tipo de emergência. Nas escolas, o treinamento em acidentes faz parte do currículo permanente. No Brasil nada disso se faz.

Como diz a regra que abriu esse comentário, o real nunca segue o roteiro previsto. O inesperado acontece. No caso do Japão, uma sequência rara e de baixa probabilidade, devastou a região de costeira de Sendai, matando milhares de pessoas. O tempo entre o terremoto de 8.9 graus e o tsunami foi muito curto e não deu tempo de evacuar a linha costeira.

A combinação entre o mega-terremoto e o violento tsunami teve repercussões inesperadas nas seis usinas nas redondezas do local mais afetado. Os geradores a diesel não funcionaram, os sistemas de fechamento automático das usinas aumentaram o risco de aquecimento. Os sistemas de refrigeração do núcleo entraram em colapso. A pressão e o acúmulo de hidrogênio provocaram explosões em duas delas, que destruíram a cobertura secundária de concreto. Essa não é a sequência completa de eventos, que não repetirei aqui. Serve apenas de ilustração. Um cenário com a sequência completa de eventos, incluindo mais de 300 choques secundários com expressiva frequência de abalos de grau 5.0 ou superior, seria considerado, corretamente, de muito baixa probabilidade. E foi ele que se verificou. O pior cenário após o colapso do sistema de refrigeração, que levaria a um gravíssimo acidente nuclear, continua de baixa probabilidade, mas já não pode ser descartado.

No Brasil, qualquer evento considerado de baixa probabilidade é descartado. Não estou falando de terremotos. Falo de todo tipo de evento, desde falha mecânica, passando por falha humana, até temporais que possam ter consequências estruturais inesperadas.

Não se adotam protocolos de precaução para eventos de muito baixa probabilidade no Brasil e é exatamente entre eles que se encontram os maiores perigos. É assim que os licenciamentos do Ibama estão sendo dados, é assim que se regula todas as áreas de risco no país, da saúde pública ao meio ambiente; dos medicamentos aos transgênicos; da aviação civil às obras de engenharia viária. Não vi elementos que me convencessem de que não seja assim, também, com energia nuclear.

Definitivamente, o Brasil não tem defesa civil, sistemas de prontidão e prevenção de acidentes nucleares compatíveis com o grau de risco que essas usinas apresentam. Não é uma questão de tecnologia, é uma questão de qualificação, disponibilidade de meios – recursos financeiros, materiais, veículos – e capacidade de planejamento do setor público. Uma questão de políticas públicas de qualidade, gestão de qualidade em todos os níveis, isolamento político de setores técnicos responsáveis pelas áreas de segurança e gestão de risco e acidentes. Enfim, um “software” de gestão e governança que não temos. Por isso é legítimo e pertinente rediscutir o plano de ampliação da geração de energia nuclear no Brasil, à luz do que ocorre agora no Japão.

 

* Esse artigo foi inicialmente publicado no site Ecopolítica. Sérgio Abranches, criador do site, é cientista político e pesquisador na área de desenvolvimento sustentável. Ele também é comentarista da CBN e foi um dos fundadores do site ((o))eco.
 



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Em defesa da energia nuclear

Eduardo Pegurier
14.03.2011

Usina atômica Fukushima Dai-ni, sob risco de vazamento depois do tsunami, foto: Digital-Globe Imagery

O tema sempre foi e será controvertido, já que não só está associado às mais destrutivas armas que o ser humano já criou, como também ao horrível acidente de Chernobyl. Mas tudo na vida é uma escolha e a energia nuclear, que foi o inimigo número um dos verdes na década de 80, passou a ser defendida por cientistas de peso, como James Lovelock, criador da hipótese de Gaia e que também prevê um radical aquecimento antropogênico do planeta ao longo do século XXI. O artigo de Claudio Angelo, no blog de Ciência da Folha, faz uma boa análise.

Gerar energia por fissão é uma operação cara, tecnologicamente complicada e exige, como lembrou Haroldo Ceravolo no Twitter, eterna vigilância. Tudo isso são preços que o Japão e outros países que mergulharam de cabeça no átomo, como a França e a Bélgica, podem pagar. Não é, como muito luddita tem dito por aí, uma energia que deva ser banida por ser inerentemente insegura. Quem falhou em Tchernobil não foi um reator, foi a União Soviética. O Japão usa essa tecnologia há mais de 40 anos e foi preciso o quinto maior terremoto da história para causar seu primeiro acidente nuclear.



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Inundações na Austrália: por que estamos surpresos? (parte 2)

Guardian Environment Network
27.01.2011

Brisbane inundada, foto: Miranda Jane (12.01.2011

 

(continuação de ontem)

 

por Germaine Greer (*)

 

O resto do mundo deve estar espantado. Apesar da previsão de subida do rio Brisbane ter sido feita dias antes, proprietários deixaram seus barcos no rio, alguns amarrados em ancoradouros, os quais foram arrancados. Literalmente, centenas desses ancoradouros foram carregados rio abaixo, colidindo com lanchas a deriva que já se batiam umas as outras. Um grande pedaço de uma passarela sobre o rio se soltou e virou um míssil aquático. Um restaurante flutuante foi sugado para debaixo de uma ponte. Surgiram idiotas em jet skis apostando corrida naquela água marrom, sem se preocupar com os detritos semi submersos que poderiam fazê-los em pedacinhos. Pessoas que insistiram em permanecer em seus apartamentos parecem não ter compreendido que a companhia elétrica seria obrigada a interromper o fornecimento de energia, que suas geladeiras não funcionariam, e que os supermercados que não estavam debaixo d’água não tinham mais comida. Pode levar semanas até que toda a água seja drenada das ruas de Brisbane, e esses durões acabarão obrigados a pedir ajuda ao pessoal de emergência.

A versão oficial é de que, nas áreas inundadas, os australianos estão sendo maravilhosos. Superam as dificuldades, ajudam uns aos outros, mantêm o bom humor, não reclamam. Quando têm a oportunidade, fazem declarações inspiradoras sobre como vão reconstruir suas comunidades, mais fortes e melhores do que nunca. Bradam que os habitantes de Queensland jamais desistem. Mas ninguém debate como reduzir o risco de inundações.
 

Área comercial debaixo d'água, foto: Erik K. Veland

 

A cor da água revela uma verdade terrível. O que a correnteza leva é a camada superior de solo. Ela se move tão rápido porque está tudo desmatado. Qualquer região arborizada, como a minha, é capaz de absorver muita água. Lá atrás, em 1923, Sydney Skertchly, geólogo inglês que que trabalhou para o governo de Queensland, alertou que a chuva que caia na parte superior do rio Nerang encurtou para 5 horas o tempo em que alcançava sua casa, na planície costeira de Molendimar. Antes do desmatamento, levava 5 dias. Quando os colonos chegaram à costa de South Wales e de Queensland, os rios eram navegáveis. À medida que o abate da floresta tropical avançou, as chuvas sazonais carregaram terra para dentro dos rios que, assoreados, começaram a transbordar.
 


Veja mapa maior

 
A maré marrom que agora polui o mar do leste da Austrália certamente vai prejudicar os já danificados ecossistemas marinhos. O mundo precisa que a Austrália restaure os seus mangues, que é onde os nutrientes levados por essa água marrom seriam reciclados. Assim como sedimentos, essa água carrega nutrientes e pesticidas das áreas agrícolas, bem como qualquer porcaria das minas de carvão, também inundadas. A salinidade da água do mar pode cair para 10 partes por 1.000 – ou menos – e permanecer assim por semanas. Quando o rio Fitzroy inundou Rockhampton em 1991, morreram todos os corais e plantas marinhas próximas às Ilhas Keppel. A região ainda não se recuperou, mas a maré marrom voltou no início de janeiro, e continua vindo. Prevê-se que a água doce que por hora deságua nos mares da Austrália rume em direção ao norte, onde a Grande Barreira de Coral já se debate por conta do aumento da temperatura do mar. Para os ecossistemas o pior, talvez o muito pior, está por vir. A Austrália deve ao resto do mundo controlar suas enchentes. Senão, companheiro, não vai ser legal.

 

pássaro-bower

 

A fauna da floresta está acostumada à chuva. Depois de se empanturrar com as pererecas que se acasalavam em uma poça, uma cobra-arbórea-marrom veio dormir na minha varanda. Os pássaros também deram o ar de sua graça. Um papa-moscas avermelhado está caçando o seu café da manhã sob o meu telhado, porque não há insetos em meio à chuva; e um bower goza sua chuveirada matinal, 50 metros acima, no topo de uma árvore quandong, limpando meticulosamente suas penas reluzentes.

 

* A escritora Germaine Greer nasceu na Austrália, onde passa de 3 a 4 meses por ano administrando a iniciativa Esforço de Reabilitação da Floresta Cave Creek, em Queensland.

 

Este artigo faz parte do Guardian Environment Network.

 



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Contra desastres naturais, mais democracia no espaço urbano

Mônica Nogara
20.01.2011

Jardim Pantanal, foto: Milton Jung

O início da urbanização ocorreu em beiras de rios e corpos d’água, por sua proximidade à fonte de alimentos, pela facilidade de abastecimento, de irrigação, de locomoção. Nas pequenas vilas, isso representava muitas vantagens, mas, nas grandes metrópoles essa gênese se tornou a causa de problemas incontáveis.

“É preciso saber também que existem anos mais complexos, mais anômalos. De 12 em 12 anos, de 13 em 13, ou de 26 em 26 anos, há períodos extremamente complicados do ponto de vista da dinâmica climática”, já dizia o geógrafo Aziz Ab’Saber, em entrevista para a revista Humanitas Unisinos On-Line – IUH (n°60),  em 2003.  “Basta lembrar o caso do nordeste de Santa Catarina, onde estudei com cuidado as épocas de mais chuvas. Lá, elas ocorrem exatamente de 13 em 13 ou de 12 em 12 anos. Publiquei um trabalho com conclusões bastante sérias. Nos próximos dez anos, antes que venha outro ano anômalo, se os governantes que conheceram a tragédia de Santa Catarina não fizerem obras e projetos adequados para minimizar os efeitos das grandes precipitações da serra catarinense — com descida das águas para Blumenau e para o Vale do Itajaí –, vão acontecer tragédias de maior consequência. E isso vale para outras áreas do país.”

Ele estava certo. Santa Catarina foi novamente atingida em 2008 e, agora, a região serrana do Rio de Janeiro sofreu mais uma tragédia previsível. Para preveni-las é preciso compreender o processo de ocupação de áreas protegidas e de risco e procurar evitá-lo, desmontando essa verdadeira bomba de efeito retardado.

Foi a disputa pelo espaço urbano que expandiu a ocupação para as áreas ambientalmente frágeis. Como coloca Maria Lúcia Refinetti, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, “os mais frágeis na escala social são empurrados para áreas desvalorizadas, por sua inadequação técnica, ou por se tratarem de áreas com restrições ambientais à ocupação, protegidas por lei e, consequentemente, excluídas do mercado formal. São assim, mais sujeitos à falta de saneamento, aos riscos ambientais e particularmente às enchentes e deslizamentos.”

A legislação que regula as APPs (Áreas de Preservação Permanente), com o objetivo de manter determinadas funções ambientais – preservar os recursos hídricos, a estabilidade geológica, a biodiversidade -, bem como assegurar o bem-estar das populações humanas, acaba por não atender a essa finalidade, já que os processos de proteção ambiental vão além da capacidade de normas e de fiscalização.

A alternativa para acomodar uma população crescente em uma quantidade de espaço finita é adensar a ocupação de áreas estruturadas da cidade, normalmente as mais ricas. É preciso ocupar os espaços vazios para evitar o espraiamento; democratizar seu uso e enfrentar os interesses de especulação imobiliária para acomodar também os mais pobres. Esse é o grande desafio. De outra forma, essa parcela da população avançará sobre o espaço natural.

Em casos de áreas já consolidadas, a legislação das APPs deveria ser reformulada e interpretada para permitir que elas sejam destinadas ao lazer, recreação, áreas verdes e parques. Isto é, quando já não puderem ser preservadas integralmente. Se fossem recuperadas como áreas verdes, as APPs reaproximariam as pessoas da convivência com a água e a natureza. É preciso também respeitar os direitos de seus ocupantes, cuja situação precária pode ser agravada se forem meramente removidos.

Mas não é esse o curso normalmente seguido pela prefeitura como, por exemplo, no caso do Jardim Pantanal, Zona Leste de São Paulo. O nome é referência às constantes inundações de verão que maltratam os moradores. Ao invés de sanar o problema, não a prefeitura pretende remover os moradores como reinstalá-los em uma área de várzea do Tietê, que deveria ser preservada. Agride ao mesmo tempo dois direitos que concorrem, o da moradia digna e o do respeito ao meio ambiente.

Parte das catástrofes poderia ser evitada. Devemos caminhar para o melhor compartilhamento do espaço urbano, com melhorias na estrutura da ocupação e, especialmente, na drenagem urbana. Além disso, é possível reduzir as áreas impermeabilizadas e construir pequenos reservatórios para contenção de água. Por fim, precisamos de um sistema de defesa civil com plano de prevenção e gestão de risco, que seja ágil na resposta a crises, evitando a perda de vidas.

A natureza não se interessa por nossas necessidades. Ao contrário, nós é que precisamos estar atentos às dela e sair do caminho que traça sem nos consultar. Para isso, devemos enfrentar interesses que se interpõem à construção de cidades mais democráticas e ambientalmente justas.

 

*Mônica Nogara é advogada com mestrado em urbanismo na área de ocupação de APPs urbanas.



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Artigos e depoimentos sobre a tragédia na região serrana

Eduardo Pegurier
16.01.2011

Cachorro guarda a cova do dono em Teresópolis, foto: AFP

Entre os bons textos que relatam in loco o que está acontecendo, expressam indignação com o descaso e relatam como outros países lidam melhor com enchentes, eis uma seleção:

Luiza Pinheiro, escritora e moradora de Teresópolis

A cidade se parece com o Haiti pós-terremoto. Nas regiões mais afetadas o cheiro está insuportável. Os corpos chegam em caminhões baú, 60, 80 de uma vez. Ou então levados pelos moradores que ainda têm carro, em pickups, caminhonetes, Fuscas. Não se conseguiu ainda fazer uma contagem oficial — os mortos que foram computados são apenas os que foram reconhecidos.

Pessoas passam boiando pelos rios. Pelas ruas, os corpos estão amontoados, ou sob escombros que máquina nenhuma conseguirá retirar. Começam-se a encontrar pés, braços (…) Leia todo o artigo

 

Marcos Sá Corrêa, jornalista e fotógrafo

Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na Região Serrana do Rio de Janeiro.

O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em voo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama (…) Leia todo o artigo

 

Agostinho Vieira, jornalista

A falta de “comunicação” e de um plano de emergência fez com que as fortes chuvas na Região Serrana do Rio resultassem em uma tragédia maior do que a ocorrida no estado de Queensland, na Austrália, também submersa recentemente pelas águas. A opinião é de Margareta Wahlström, subsecretária-geral da ONU para a Redução de Riscos de Desastres (…)

No país da Oceania, inundações em três quartos do estado de Queensland haviam provocado pelo menos 13 mortes até a última quarta-feira. Na serra fluminense, o saldo de mortos já passa de 500. Para Wahlström, o Brasil poderia ter evitado mortes se tivesse planos de emergência eficazes. Ela cita como exemplo iniciativas de outros países em desenvolvimento, como a Indonésia, que, “apesar de ser uma nação pobre, tem planos de evacuação diante de ameaças de terremoto e de erupção de vulcão, por exemplo”. “São iniciativas que salvam vidas”, diz ela (…) Leia todo o artigo

 

Fernando Gabeira, jornalista e ex-deputado

Ao olhar o alto do morro, vi o imenso sulco cinzento da areia que deslizou pela montanha, arrastando milhares de pedras. O rio amarelo de uns seis metros de largura antes era o tranquilo Santo Antônio, que cresceu e enlouqueceu com a tempestade, criando mais dois cursos, sepultando a rua e fazendo de margem o asfalto retorcido.

Logo que passei pela igreja católica da Posse, branca e perdida no meio do lamaçal, um homem que descia me disse:

- Para que subir lá? Acabou tudo.

Leia todo o artigo. Veja o seu blog, onde ele continua o relato, agora em Friburgo.

 

Vídeo, Paulo Canhedo, especialista em hidrologia

Ótima entrevista no programa Globo News em Pauta. Ele alerta para utilização imprópria do solo em Teresópolis e afirma que as chuvas que caíram na região serrana foram excepcionais, 30 vezes mais fortes do que as que inundaram São Paulo dias antes. Veja o programa

 

Dicas: foto via The Daily Tail; artigos via Ecoverde e Catalisando

 

* Esse post será atualizado na medida em que nos cheguem outros bons textos



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Mapa e Lista: pontos de doação para a região serrana

Eduardo Pegurier
15.01.2011


Visualizar Ajuda para a Região Serrana – RJ (doações, voluntários, hospitais e abrigos) em um mapa maior

 
Acima, no mapa, extensa lista de pontos em que se pode ajudar. É só clicar no ícone para ver o endereço e telefones disponíveis.  Cada cor representa um tipo de auxílio:

 

  • Símbolo Amarelo – Locais que estão recebendo doações
  • Simbolo Vermelho – Hospitais de campanha e Coleta de Sangue
  • Símbolo Verde – Locais de cadastramento de voluntários

Doações mais pedidas:

  • Doação de sangue
  • Mantimentos:
    • Água mineral
    • Alimentos não perecíveis (enlatados, massas e sopas desidratadas, feijão, leite em pó, açúcar, pó de café)
    • Roupas e calçados
    • Cobertores e roupas de cama
    • Colchões
    • Material de higiene pessoal (sabonete, pasta e escova de dente; fraldas e absorventes)
    • Velas, isqueiros e fósforos

Local para Doação de Sangue:

  • Hemorio: O órgão da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil fez um apelo para que a população doe sangue. O Hemorio fica na Rua Frei Caneca, nº 8, no Centro do Rio. Diariamente das 7h às 18h, inclusive em
    sábados, domingos e feriados. Para ser um candidato à doação, o voluntário deve ter entre 18 e 65 anos, pesar mais de 50 quilos, estar bem de saúde e levar um documento oficial de identidade com foto. Mais informações
    podem ser obtidas através do Disque-Sangue (0800-282 0708), que esclarece dúvidas e agenda o horário de doação no Hemorio com hora marcada.

Locais para deixar mantimentos e contas bancárias para constribuições:

  • Polícia Militar: todos os batalhões da PM do Rio também estão funcionando com centros de doações. O material arrecadado será encaminhado ao 12º BPM (Niterói), de onde será enviado para as áreas afetadas.
    Estádios: A Secretaria Estadual de Esporte e Lazer montou postos de recolhimento de material nos estádios do Maracanãzinho (das 8h às 20h, portão 12) e do Caio Martins (das 8h às 20h, pelo portão principal na
    Avenida Roberto Silveira, em Icaraí.
  • Bombeiros: os 106 quartéis do Corpo de Bombeiros, em todo o estado, aceitam doações. No entanto, eles não recebem roupas e calçados.
  • Cruz Vermelha -  Praça da Cruz Vermelha 10, no Centro do Rio de Janeiro. É possível fazer doações em vários estados. A entidade abriu uma conta para receber doações em dinheiro (Banco Real
    Ag. 0201 c/c 1793928-5). Mais informações nos telefones: 2507-3392 e 2507-3577
  • Viva Rio: o Programa de Voluntariado do Viva Rio está arrecadando roupas e mantimentos. As doações podem ser feitas na Rua do Russel, 76, Glória ou através de depósito bancário na conta do Viva Rio, no
    Banco do Brasil, agência 1769-8, conta-corrente 411396-9 e CNPJ: 00343941/0001-28. Para mais informações o Viva Rio disponibiliza os telefones (21) 2555-3750 e (21) 2555-3785.
  • CNBB: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a campanha “SOS SUDESTE” para ajudar às vítimas das chuvas. A entidade criou uma conta para que as doações sejam feitas na Caixa
    Econômica (conta 1490-8, agência 1041 ) e no Banco do Brasil ( conta 32.000-5 – agência 3475-4).
  • Secretaria de Assistência Social está com bases montadas em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo. As doações podem ser feitas nos seguintes locais:
    • Sede da Fundação da Infância e Adolescência, Rua Voluntários da Pátria 120, em Botafogo; FIA Niterói, Rua General Castrioto 589, Barreto; Petrópolis, Rua General Osório 12, 2º piso, Centro; Teresópolis, Rua Josafá Cupelo 390, Bairro de Fátima; Friburgo, Avenida Julius Antônio Thuller 480, Olaria.
  • Rodoviária Novo Rio: na Rodoviária Novo Rio, as doações para a Cruz Vermelha estão sendo recebidos no piso de embarque inferior, das 9h às 17h.
  • Metrô: também em parceria com o Viva Rio, o Metrô Rio está recolhendo doações para os desabrigados. A coleta será feita em 11 estações das linhas 1 e 2, Carioca, Central, Largo do Machado, Catete, Glória,
    Ipanema/General Osório, Pavuna, Saens Peña, Botafogo, Nova América/Del Castilho e Siqueira Campos. Poderão ser doados até o dia 11 de fevereiro água, alimentos não perecíveis e material de higiene pessoal.

Bancos e Empresa

  • Vale do Rio Doce vai doar R$2 para cada real depositado na conta da Fundação Vale. Release:  A Vale assumiu o compromisso de doar R$ 2 a cada R$ 1 depositado na conta, aberta na sexta-feira, para receber doações em dinheiro de seus empregados em todo o Brasil, familiares, amigos e quem mais desejar ajudar as vítimas das enchentes na Região Serrana do Rio. Só serão aceitos depósitos de pessoas físicas, e a campanha vai até o dia 31 de janeiro. Dados para o depósito:

Favorecido: Fundação Vale

Bando do Brasil (001), Agência 1755-8, Conta Corrente 6584-6; CNPJ 33.896.291/0001-05 (usar este dado se for transferir dinheiro de outro banco, via DOC)

  • Caixa Econômica Federal: o banco abriu uma conta corrente para ajudar as vítimas das chuvas no estado do Rio de Janeiro. As doações aos moradores das regiões em estado de emergência podem ser feitas na conta da
    Defesa Civil do Rio de Janeiro, número 2011-0, agência 0199, operação 006.
  • Banco do Brasil: o banco abriu uma conta corrente para ajudar as vítimas das chuvas no estado do Rio de Janeiro. Conta corrente, em nome da Prefeitura de Teresópolis, são: agência 0741-2, c/c 110000-9. Para
    ajudar às vítimas de Nova Friburgo os dados são: agência: 0335-2, c/c:120.000-3. Doações para as vítimas de Petrópolis (RJ): ag. 0080-9, c/c 76.000-5
  • Bradesco: o banco abriu uma conta para receber doações para vítimas das enchentes na Região Serrana do Rio. O próprio Bradesco fará o primeiro depósito. O beneficiário da conta é o Fundo Estadual da Assistência
    Social, agência 6570-6, conta corrente 2011-7.
  • Itaú Unibanco: aceita doações em favor de Fundo Estadual de Assistência Social do Estado do Rio de Janeiro: Itaú (341), Agência 5673, Conta 00594-7, CNPJ: 02932524/0001-46. Podem ser feitas pela internet

Prefeituras

  • Teresópolis: os donativos podem ser entregues no Ginásio Pedrão, na Rua Tenente Luiz Meirelles 211, Centro. Informações podem ser obtidas pelo 199 da Defesa Civil. Uma conta exclusiva para receber doações
    também foi aberta para receber doações. Com o nome de “SOS Teresópolis – donativos”, a conta está disponível na Agência 0741-2 do Banco do Brasil, com o número 110.000-9. O CNPJ é
    29.138.369/0001-47. Há também a conta 2011-1, agência 4146, da Caixa Econômica Federal. Segundo a Saiba onde fazer doações para as vítimas das chuvas na Região Serrana. Segundo a prefeitura, são aceitas ajudas de qualquer valor.
  • Petrópolis: a prefeitura divulga a conta S.O.S Petrópolis, número 76.000-5, no Banco do Brasil, agência: 0080-9. A Prefeitura está concentrando as doações no Centro de Cidadania de Itaipava (Estrada União
    Indústria, 11.860) e na sede da Secretaria de Trabalho, Assistência Social e Cidadania, que fica na Rua Aureliano Coutinho, 81, Centro (Fundos do prédio da Ampla).
    No Centro de Cidadania de Itaipava foi a aberto um Posto de Desaparecidos, onde parentes das vítimas devem comunicar o desaparecimento para agilizar os trabalhos dos socorristas.
  • Friburgo: a prefeitura divulga o SOS Nova Friburgo para doações no Banco do Brasil pela agência 03352 e conta corrente: 120000-3.

Animais

Os corpos estão sendo recolhidos e procura-se socorrer as vitimas, mas centenas de animais perderam os donos ou foram abandonados e estão vagando pelas ruas, com frequência apedrejados por pessoas temerosas de contrair doenças. Eles também merecem ajuda. Veja, no anúncio, ONGs ligadas ao assunto.

Se precisar de mais alternativas, veja a relação completa publicada pelo O Globo. Post via dicas de Rodrigo Padilha; The Daily Tail;  twitter do caderno Razão Social e do Carlos Alberto Teixeira; e site Globo Online

 



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Destruição no Vale do Cuiabá ocorreu dentro de APPs

Raul Bueno
14.01.2011

A seta indica a faixa de construções dentro da APP. Clique e explore o mapa - fonte: Google Earth

Um trecho de 3 quilômetros do vale foi devastado pela transbordamento do rio Cuiabá. A maior parte das vítimas fatais no município de Petropólis estavam lá. A contagem até o fechamento desse post é de 41 mortos e 22 desaparecidos.

A imagem acima, extraída do Google Earth e editada em Autocad, mostra que, na área mais afetada, existiam inúmeras construções dentro da APP (Área de Proteção Permanente), onde o código florestal brasileiro, proíbe edificações. No caso de rios com até 10 metros de largura, medidos no seu nível mais alto, a APP exige um afastamento de 30 metros de cada margem do rio.

A linha azul assinala o curso do rio Cuiabá. E as duas linhas laranja delimitam os limites aproximados da APP. Veja a quantidade de casas de maneira indubitável dentro desses limites. A imagem fala por si só.

A pousada Tambo los Incas — que foi submersa e destruída pelas águas — ficava pouco abaixo desse ponto. Medindo pelo Google Earth, a pousada estava a 42 metros do rio, portanto possivelmente fora da APP, caso a largura do rio na sua cheia fosse (normalmente) pouco diferente da média. A margem de erro dessa medição é de 1 a 2 metros.

Tambo los Incas: poucos metros fora da APP. Ainda assim, devastada. Clique e explore o mapa.

No caso do Vale do Cuiabá, estreito e íngreme, um estudo mais apurado, feito por um hidrólogo, provavelmente demarcaria uma faixa bem maior que a distância mínima exigida pelo código florestal.O código está em vigor desde 1965. Algumas propriedades são anteriores a ele. O resto é crime.

 

* Raul Bueno é arquiteto urbanista. Ele doou o valor pago por esse artigo ao fundo de ajuda às vítimas.

 

Obs: esse texto foi editado para uma pequena correção no dia 18 de janeiro.



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