15 dicas para um consumo mais sustentável

Luana Caires
09.06.2011

Avalie os seus hábitos de consumo antes de comprar sem necessidade, foto: Trevin Chow

Você já parou para pensar sobre os impactos ambientais que o seu padrão de consumo causa? As compras que fazemos – seja na feira, no supermercado ou no shopping center –, a maneira como produzimos nosso lixo, como usamos nossos eletrodomésticos, como consumimos água e energia ou até mesmo carne e produtos de madeira deixa marcas degradantes no meio ambiente. Atualmente, consumimos 20% a mais de recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. Por isso, uma mudança de atitude é mais do que necessária e é bem mais simples do que você pode imaginar. Confira abaixo algumas dicas do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) para poupar o meio ambiente com pequenas alterações em nossos hábitos.

  1. Questione e avalie os seus hábitos de consumo antes de decidir pela compra de qualquer produto e procure consumir apenas o necessário.
  2. Informe-se sobre a origem e o destino de tudo que você consome. Optar por produtos feitos com métodos sustentáveis ajuda a cadeia produtiva a ser mais responsável e minimiza os impactos no meio ambiente.
  3. Antes de comprar um novo equipamento, verifique a etiqueta e escolha aquele que consome menos energia.
  4. Evite luzes ou equipamentos ligados quando não for necessário. Os aparelho em stand-by continuam consumindo energia.
  5. Cobre das empresas de eletroeletrônicos uma política de coleta, reciclagem e fabricação de produtos  com baixo consumo de energia.
  6. Reduza o tempo do banho. Você poupa água e ajuda a diminuir o consumo de energia. E não deixe de revisar suas torneiras! Uma torneira pingando a cada 5 segundos representa, em um dia, 20 litros de água desperdiçada.
  7. Solicite produtos orgânicos com certificação de origem de qualidade de gestão ambiental aos supermercados e fornecedores de materiais de limpeza.
  8. Substitua a lâmpadas incandescentes por lâmpadas econômicas. Elas geram a mesma luminosidade, duram mais e poupam 80% de energia.
  9. Ligue a máquina de lavar roupa apenas com a carga cheia. Você poupa água, energia, sabão e tempo.
  10. Utilize sacolas de pano ou caixas de papelão em vez de recorrer às sacolinhas plásticas.
  11. Ao comprar móveis, prefira madeira certificada. Assim você evita o desmatamento da Amazônia.
  12. Sempre que possível, reutilize produtos e embalagens.
Não compre outra vez o que você pode consertar, transformar e reutilizar. E, mesmo que não seja feita a coleta seletiva em seu bairro, separe o lixo reutilizável do orgânico e encaminhe para a reciclagem. Reciclar é uma maneira de contribuir para a economia dos recursos naturais, a redução da degradação ambiental e a geração de empregos.
  13. Diminua o uso de produtos de higiene e limpeza. Assim você reduz o nível de poluentes presentes na água e no tratamento do esgoto.
  14. Incentive a carona solidária e organize caronas com familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.
  15. Faça as contas: ir a pé, usar bicicleta, transporte coletivo ou táxi é mais barato e polui menos do que comprar um automóvel. Mas, se a compra de um carro for inevitável, consulte a Nota Verde do Proconve no site www.ibama.gov.br e a etiqueta de eficiência energética para escolher o modelo menos poluente. E não esqueça de manter em dia a manutenção do seu veículo. Faça inspeção veicular, não retire o catalisador, devolva a bateria e os pneus usados ao revendedor na hora da troca. Os pontos de venda são obrigados a aceitar e reciclar esses produtos.

 

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Fórmula 1 abraçará motores elétricos híbridos em 2013

Eduardo Pegurier
06.05.2011

Ferraris F1, salteados de 1949 a 2001 -- foto:IJsselstein

O ronco dos motores está em cheque e nem todo mundo está gostando disso. A partir de 2013, a F1 vai começar a usar motores híbridos, semelhantes em conceito ao de carros que já rodam há anos por aí, caso do pioneiro Toyota Prius. Na pista, os bólidos atingirão velocidades de mais de 300 km/hora impulsionados por um motor a combustão, mas a passagem pelos boxes será feita em total silêncio. Nessa parte, usarão exclusivamente um motor elétrico. Ainda assim, a categoria estará longe de produzir uma corrida com carros elétricos puros-sangues. Pelo menos, os novos motores híbridos apontam para esse caminho e embutem novidades poupadoras de energia.

Os atuais motores da F1 são de 8 cilindros, 2,4 litros e produzem cerca de 800 cavalos de potência. O segredo de tanta potência é que esse propulsores chegam a 19 mil rotações por minuto, contra 7 mil de um carro de rua. Aprovada pelo FIA, órgão que comanda a F1, a nova proposta é de um motor bem menor. Ele terá 4 cilindros e 1,6 litros e, entretanto, será mais poderoso. Hoje, os carros já usam sistemas de recuperação de energia cinética (da sigla KERS, em inglês). Esses sistemas acumulam energia nas freadas, que posteriormente pode ser usada para dar um impulso extra aos carros em momentos chave, como as ultrapassagens. Nos novos motores híbridos, o KERS deverá ser 4 vezes mais poderoso e permitir que os motores superem fácil os 800 cavalos de potência. “Em última instância, a Fórmula 1 se define pela tecnologia que adota e por estar em constante reinvenção de si mesma. Não importa se a mudança passa pelo chassi ou pelo motor. Essa é a essência do nosso esporte”, diz Adam Parr, dirigente do time Williams e defensor fervoroso do novo motor.

Parr talvez apoie a iniciativa porque sua escuderia não vence um campeonato desde 1997, há 14 temporadas. “As pessoas que não querem mudanças são aquelas que, por alguma razão, percebem que tem uma vantagem derivada da tecnologia em uso”, afirma e ao mesmo tempo passa recibo.

Contra a alteração está Bernie Ecclestone, o super cartola da F1. Ele teme pela falta do ronco dos motores – que comove os fãs — mesmo que seja só durante as passagens pelos boxes. Ao seu lado, está a Ferrari, sinônimo de F1, que também vende carros de rua com motores de 8 e até 12 cilindros. Mas a Scuderia Ferrari mudou ao longo dos anos, como mostra a foto acima, que enfileira modelos de corrida das temporadas de 1949 até 2001.

A F1 vai continuar a ser o playground de pilotos mimados e o campo de batalha dos cartolas gananciosos, mas se voltar a perseguir uma de suas características mais proclamadas, a de laboratório de novas tecnologias, pode colocar esses egos desmedidos a trabalharem por algo que mais tarde possa tornar os 600 milhões de carros que rodam pelo mundo — fora outros 200 milhões de caminhões leves – mais econômico e ajudá-los a se livra dos combustíveis fósseis. Por enquanto, tem que recuperar o tempo perdido. O Toyota Prius foi lançado no Japão em 1997, por coincidência, mesmo ano em que a Williams iniciou seu jejum.

 

dica: Engadget



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Porque Fukushima despreocupou e me fez adorar energia nuclear

Guardian Environment Network
29.03.2011

Linhas de transmissão sainda de usina nuclear em Suffolk, UK - foto: Rodney Burton

 

por George Monbiot*

 

Você não se surpreenderá em saber que os acontecimentos no Japão mudaram meu ponto de vista sobre energia nuclear. Vou surpreendê-lo pela direção em que mudei de opinião. Em consequência do desastre de Fukushima deixei de ser neutro em relação à energia nuclear. Agora, eu apoio essa tecnologia.

Uma velha usina, de quinta categoria, com mecanismos de segurança inadequados foi atingida por um extraordinário terremoto seguido de vasto tsunami. O fornecimento de eletricidade falhou e derrubou o sistema de refrigeração. Os reatores começaram a explodir e derreter. O desastre expôs a situação típica de projeto ruim e economias porcas na sua operação. Mesmo assim, pelo menos até agora, ninguém ainda recebeu uma dose letal de radiação.

Alguns verdes exageraram absurdamente os perigos da poluição radioativa. Para uma avaliação mais clara, olhe o gráfico publicado pelo site xkcd.com. Ele mostra que no desastre de Three Mile Island a dose média que atingiu as pessoas vivendo em um perímetro de 16 km do vazamento foi 1/625 avos do máximo anual permitido nos EUA para trabalhadores que lidam com radiação. Esta dose, por sua vez, é metade da menor dose claramente ligada a um aumento de risco de câncer. E, finalmente, essa última é igual a 1/80 avos de uma dose fatal. Não estou aqui propondo que sejamos complacentes. Quero propor que tenhamos perspectiva.

Se outras formas de produção de energia não causassem danos, esses impactos teriam outro peso. Mas energia é como medicina: se não houver efeitos colaterais, a maior chance é que o remédio não funcione.

Como a maioria dos verdes, eu apoio a expansão de fontes renováveis. Também entendo as reclamações dos seus oponentes. Não são apenas as turbinas eólicas terrestres que incomodam as pessoas, elas também demandam mais infraestrutura de distribuição de energia, como cabos e postes. Para manter as luzes acesas, à medida que a proporção de energia elétrica renovável se expande, a necessidade de estocá-la também cresce. Isso significa mais reservatórios nas montanhas, os quais não são nada populares.

Os impactos e custos das renováveis aumentam com a sua fatia na geração total de energia, pois a necessidade de armazenamento e redundância aumenta. É bem capaz que seja o caso (não vi ainda surgir nenhum estudo comparativo a respeito) de que até um certo ponto – 50% ou 70%, talvez? – as renováveis tenham um impacto menor sobre a geração de carbono do que a nuclear. E, a partir daí, a nuclear tenha um impacto menor do que as renováveis.

Como outros, defendo o uso das renováveis para substituir a eletricidade gerada através de combustíveis fósseis e para suprir as necessidades de expansão do fornecimento, substituindo o óleo usado nos transportes e o gás utilizado para aquecimento no inverno. Mas devemos também exigir que as renováveis substituam a capacidade de geração nuclear instalada? Quanto mais esperarmos das renováveis, maior será o seu impacto sobre a paisagem e mais duro será convencer o público a aceitá-las.

Mas expandir a infraestrutura de distribuição para conectar as pessoas e a indústria a fontes abundantes de energia natural foi uma alternativa rejeitada pelos verdes que reagiram ao meu post recente, no qual argumento que a energia nuclear é mais segura do que o carvão. O que eles disseram querer é algo bem distinto: devíamos diminuir o consumo de energia e produzi-la localmente. Alguns chegaram a argumentar que devemos abdicar da infraestrutura de distribuição de eletricidade. Essa visão bucólica é adorável, até você se dar conta dos detalhes.

Em latitudes tão ao norte, como a nossa, a maior parte da tecnologia de geração em pequena escala é inviável. Gerar energia solar no Reino Unido envolve um fantástico desperdício de recursos escassos. É de uma ineficiência total, além de ser difícil de conciliar com os horários de pico de consumo. Energia eólica em áreas densamente habitadas dificilmente é possível. Parte é consequência de termos construído nossas cidades em lugares protegidos e, parte, devido a interferência que os prédios causam no fluxo de ar. Micro hidroelétricas podem funcionar em uma fazenda no País de Gales, mas não em Birmingham.

Como abasteceríamos nossa indústria têxtil, fornos de tijolos e ferrovias elétricas? Isso para não falar de processos industriais avançados. No momento em que você considera a demanda total da economia, acaba o seu amor pela produção local de energia. Uma boa infraestrutura de distribuição nacional (ou, melhor ainda, internacional) é o pré-requisito essencial para o fornecimento de energia renovável.

Existem verdes que vão ainda mais longe: porque desperdiçar recursos renováveis usando-os para produzir eletricidade? Por que não podemos usá-los diretamente para gerar energia? Para responder essa questão, dê uma olhada no funcionamento da Inglaterra antes da Revolução Industrial.

Represas e açudes nos rios britânicos usados para mover moinhos eram um exemplo de tecnologia em pequena escala, renovável, pitoresca e devastadora. Bloquear rios e assorear suas áreas de desova ajudou a acabar com as gigantescas migrações de peixes que, um dia, foram um dos nossos maiores espetáculo naturais e fontes de alimentação – extinguindo espécies como o esturjão, a enguia de água doce e o sável, como também o salmão e a maior parte das trutas marítimas.

O uso de tração animal estava diretamente ligado à fome. Quanto mais terra era separada para alimentar animais de tração para a indústria e o transporte, menos havia disponível para alimentar humanos. No século 17, essa tendência foi o equivalente à crise atual provocada pelos biocombustíveis. O mesmo se aplica ao combustível usado para aquecimento. E. A. Wrigley destaca no seu livro Energy and the English Industrial Revolution (Energia e a revolução industrial inglesa),  que os 11 milhões de toneladas de carvão extraídos na Inglaterra em 1800, caso fossem substituídos por madeira, exigiriam 11 milhões de acres ocupados por florestas, o equivalente a um terço do nosso território.

Antes do carvão se tornar amplamente disponível, a madeira não era usada apenas para aquecer residências, mas também para processos industriais: se a metade da superfície da Inglaterra fosse coberta de florestas, mostra Wrigley, poderíamos produzir 1,25 milhões de toneladas de ferro por ano (uma fração do consumo corrente) e nada além disso. Naquela época, mesmo com uma população muito menor do que a atual, bens manufaturados e a economia baseada em recursos advindos da terra eram reservadas à elite. Energia radicalmente verde – decentralizada e baseada em produtos do solo – é muito mais danosa à humanidade do que um acidente atômico.

Mas a fonte de energia da qual a maior parte das economias dependerá, caso fechem suas usinas atômicas, não é madeira, água, vento ou sol, mas sim combustível fóssil. Sob qualquer medida de impacto (mudança climática, danos de mineração, poluição local, acidentes de trabalho/mortes na indústria e até descargas radioativas), carvão é 100 vezes pior do que energia nuclear. E graças à expansão do gás extraído de xisto, os impactos ambientais do gás estão aumentando rapidamente.

Sim, continuo detestando os mentirosos que comandam a indústria nuclear. Sim, eu preferiria ver o setor inteiro ser fechado, se houvessem alternativas que não causassem danos. Mas não existem soluções ideais. Todo tecnologia energética traz o seu custo; e deixar de usá-las também tem custo. A energia atômica acabou de passar por um dos mais duros testes possíveis, e o impacto sobre as pessoas e o planeta foi pequeno. A crise de Fukushima me converteu à causa nuclear.

 

* ((o))eco publica esse artigo como membro da Guardian Environment Network. Ele saiu inicialmente no Guardian, em 21/3/2011.

 

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Por um futuro verde e seguro, sem energia nuclear

Ricardo Baitelo
28.03.2011

Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ), foto: Rodrigo Soldon

O acidente nuclear em Fukushima vem mais uma vez, a exemplo do ocorrido em Chernobyl (1986) e do não tão distante vazamento de Césio – 137 na cidade de Goiânia (1987), expor à sociedade brasileira o problema da falta de segurança da energia nuclear. Na carona desta discussão internacional, cresce o debate sobre a expansão das energias renováveis, que emitem uma baixa quantidade de gases estufa e, ao contrário da energia nuclear, não oferecem riscos de acidentes de proporções irreversíveis.

Contrariando o argumento de que o Japão é um país sem outras opções de fontes energéticas além da nuclear, o Greenpeace lançou em 2008 a versão japonesa do relatório Revolução Energética, com previsões de como o país pode ter sua matriz energética 60% renovável nos próximos 40 anos. Para isto, bastaria focar seus investimentos em eólica, biomassa, geotérmica e solar. Graças a seu alto potencial para eficiência energética, o Japão pode também diminuir seu consumo em 53% nos próximos 40 anos.

A contrapartida de optar por este caminho seria uma redução de 77% de emissões de CO2 até 2050, economia e geração de empregos sem que nem mais uma poeira radioativa ameaçasse a população da ilha. Pelas projeções do relatório, o último reator nuclear daria adeus ao país até 2045.

No Brasil as condições naturais são ainda mais favoráveis. O potencial brasileiro eólico e solar mal começou a ser explorado – o de vento poderia atender ao triplo da demanda energética atual do país e o de sol a vinte vezes o que se precisa de energia hoje. A biomassa também poderia contribuir para esta transformação se o potencial energético de nossos canaviais, equivalente ao de duas hidrelétricas de Itaipu, fosse aproveitado. Hoje a falta de uma lei nacional que incentive o uso de renováveis impede que este e outros planos renováveis se tornem realidade.

Enquanto isto, nosso governo insiste em um modelo de desenvolvimento que não preza pela segurança da população. Prova disto é que as atividades de regulação e fiscalização do setor são contraditoriamente concentradas em um mesmo órgão, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, conhecida pela sua má atuação no acidente de Césio 137 e sem competência para operar em um eventual acidente nuclear de grandes proporções. Tal modelo de governança na área nuclear apenas se repete em três outros países do mundo: Irã, Coréia do Norte e Paquistão, países que não primam por um relacionamento democrático com sua sociedade.

Além dos impactos ambientais e sociais, é importante salientar que a geração nuclear já é uma das formas mais caras de energia e deve ter seu custo reavaliado em face da revisão de critérios de segurança de reatores e depósitos de rejeitos, bem como a real mensuração de seguros contra acidentes.

O debate precisa ir além das escolhas governamentais de planejamento. É hora de abrir a discussão para a sociedade, que deve decidir, de forma democrática, livre e pluralista, que opção de desenvolvimento deseja para o seu país. O Brasil tem tudo para construir um futuro verde, limpo e seguro. O que estamos esperando para dar este passo?

 

*Ricardo Baitelo é coordenador de energia renovável do Greenpeace Brasil

 

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Japão: Agora o risco nuclear

Sérgio Abranches
15.03.2011


 
Japão entra em fase de alto risco nuclear. Há perigo iminente de derretimento do núcleo do reator 3 de Fukushima. É um risco sério. Mas ainda se parece mais com Three Mile Island, do que com Chernobyl. Entretanto, há uma regra de outro para análise de risco de desastres e para a cobertura de desastres: desastre nunca segue o roteiro previsto ou imaginado. Sempre há o inesperado. No caso do Japão, o inesperado foi o grau de intensidade do terremoto, 8.9 ou 9.0 na escala Richter, a violência do tsunami que se seguiu, a decorrente perda de controle sobre os sistemas auxiliares de geração de energia e do sistema de refrigeração do núcleo do reator.

São seis as usinas em perigo. A maior fonte de preocupação é a unidade 3 de Fukushima, que sofreu uma explosão de hidrogênio nessa segunda. Ela tem uma mistura de óxido de plutônio e urânio (MOX), que segundo os cientistas que estudam processos em usinas nucleares de água leve agravam as consequências de acidentes severos nos quais grandes quantidades de gás radiativo e aerossóis são liberados no ambiente externo. Isso porque o combustível de tipo MOX contém maior quantidade de plutônio e outras substâncias, chamadas actinídeos, como o amerício e o cúrio que têm alta rádio-toxicidade.

O núcleo com material radiativo é resfriado a água, que deve cobrir inteiramente, o tempo todo, as barras com pastilhas de material nuclear. O que aconteceu é que a água na cápsula de segurança da unidade 3 baixou três metros, deixando as barras a descoberto, o que provoca aquecimento muito perigoso. Eles bombearam água do mar na cápsula, o que é uma medida extrema, porque ela é corrosiva e pode destruir o reator. Mas o medidor indicou que a água parou de subir e deixou 2 metros das barras a descoberto. Eles não sabem se é erro de medição ou se água realmente não subiu e as barras estão expostas. A queda no nível de água ocorreu mais de uma vez. Risco muito alto. O maior perigo é uma reação nuclear fora de controle, que poderia derreter a base de concreto da cápsula e produzir um grande desastre nuclear. Nesse momento não se pode descartar a possibilidade, embora a probabilidade seja baixa. Questão chave agora é saber se os operadores conseguem manter a cápsula de segurança intacta e controlar, isolar e conter o material radiativo, para evitar a dispersão de radioatividade pelo ambiente.

O que chama atenção nesse caso é o seguinte: o Japão tem um dos melhores índices de qualidade de segurança, tecnologia de construção resistente a terremotos e prevenção e prontidão em desastres. Mesmo assim, se mostrou muito falível e vulnerável. O grau de controle sobre o que se passa na cápsula de segurança é menor do que se poderia imaginar. A possibilidade de falhas é real. E houve falhas. As ações de gestão de risco têm sido em tempo adequado e as medidas são exatamente as indicadas pelos cientistas para casos como este. Mas o inesperado sempre acontece. Quando foram construídas as usinas nos anos de 1970, nem se imaginava a possibilidade de um terremoto de 8.9-9.0 graus. Foram construídas para resistir a abalos de 7.5.

Houve falhas importantes de comunicação com a mídia e com as comunidades. Mas, a defesa civil e o serviço de segurança nuclear mostraram que têm, de fato, alto padrão de qualidade. Mesmo assim, nem os operadores, nem as autoridades do setor de energia nuclear do país têm absoluto controle sobre o que se passa nas instalações afetadas.

O mundo todo está apreensivo. O incidente no Japão, considerado referência em segurança civil, correndo o risco de se tornar palco de sério acidente nuclear, põe em questão todos os protocolos de segurança em uso por toda parte. A governança nuclear está em cheque. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, determinou revisão de segurança imediata em todos os reatores do país. A oposição à energia nuclear aumenta no mundo todo.

No Brasil temos ainda mais razões para apreensão. O ex-ministro do Meio Ambiente de Lula, Carlos Minc, atual secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, lembrou ontem em seu Twitter que há 25 anos teve “de ganhar ação na Justiça Federal para obrigar Angra 1 a fazer plano de contingência e emergência”. A questão não é apenas de tecnologia nuclear. É também de capacidade de governança, em todos os níveis, desde a qualidade da regulação, até a capacidade de ação dos governos federal, estadual e municipal, no caso de um acidente. Basta lembrar o número de perdas e as dificuldades de resgate que um deslizamento relativamente pequeno por causa de chuvas fortes causou em Ilha Grande, Angra dos Reis, no final de 2009.

No Japão há treinamento sistemático e disciplinado, com exercícios frequentes de toda a população, para cada tipo de emergência. Nas escolas, o treinamento em acidentes faz parte do currículo permanente. No Brasil nada disso se faz.

Como diz a regra que abriu esse comentário, o real nunca segue o roteiro previsto. O inesperado acontece. No caso do Japão, uma sequência rara e de baixa probabilidade, devastou a região de costeira de Sendai, matando milhares de pessoas. O tempo entre o terremoto de 8.9 graus e o tsunami foi muito curto e não deu tempo de evacuar a linha costeira.

A combinação entre o mega-terremoto e o violento tsunami teve repercussões inesperadas nas seis usinas nas redondezas do local mais afetado. Os geradores a diesel não funcionaram, os sistemas de fechamento automático das usinas aumentaram o risco de aquecimento. Os sistemas de refrigeração do núcleo entraram em colapso. A pressão e o acúmulo de hidrogênio provocaram explosões em duas delas, que destruíram a cobertura secundária de concreto. Essa não é a sequência completa de eventos, que não repetirei aqui. Serve apenas de ilustração. Um cenário com a sequência completa de eventos, incluindo mais de 300 choques secundários com expressiva frequência de abalos de grau 5.0 ou superior, seria considerado, corretamente, de muito baixa probabilidade. E foi ele que se verificou. O pior cenário após o colapso do sistema de refrigeração, que levaria a um gravíssimo acidente nuclear, continua de baixa probabilidade, mas já não pode ser descartado.

No Brasil, qualquer evento considerado de baixa probabilidade é descartado. Não estou falando de terremotos. Falo de todo tipo de evento, desde falha mecânica, passando por falha humana, até temporais que possam ter consequências estruturais inesperadas.

Não se adotam protocolos de precaução para eventos de muito baixa probabilidade no Brasil e é exatamente entre eles que se encontram os maiores perigos. É assim que os licenciamentos do Ibama estão sendo dados, é assim que se regula todas as áreas de risco no país, da saúde pública ao meio ambiente; dos medicamentos aos transgênicos; da aviação civil às obras de engenharia viária. Não vi elementos que me convencessem de que não seja assim, também, com energia nuclear.

Definitivamente, o Brasil não tem defesa civil, sistemas de prontidão e prevenção de acidentes nucleares compatíveis com o grau de risco que essas usinas apresentam. Não é uma questão de tecnologia, é uma questão de qualificação, disponibilidade de meios – recursos financeiros, materiais, veículos – e capacidade de planejamento do setor público. Uma questão de políticas públicas de qualidade, gestão de qualidade em todos os níveis, isolamento político de setores técnicos responsáveis pelas áreas de segurança e gestão de risco e acidentes. Enfim, um “software” de gestão e governança que não temos. Por isso é legítimo e pertinente rediscutir o plano de ampliação da geração de energia nuclear no Brasil, à luz do que ocorre agora no Japão.

 

* Esse artigo foi inicialmente publicado no site Ecopolítica. Sérgio Abranches, criador do site, é cientista político e pesquisador na área de desenvolvimento sustentável. Ele também é comentarista da CBN e foi um dos fundadores do site ((o))eco.
 



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Em defesa da energia nuclear

Eduardo Pegurier
14.03.2011

Usina atômica Fukushima Dai-ni, sob risco de vazamento depois do tsunami, foto: Digital-Globe Imagery

O tema sempre foi e será controvertido, já que não só está associado às mais destrutivas armas que o ser humano já criou, como também ao horrível acidente de Chernobyl. Mas tudo na vida é uma escolha e a energia nuclear, que foi o inimigo número um dos verdes na década de 80, passou a ser defendida por cientistas de peso, como James Lovelock, criador da hipótese de Gaia e que também prevê um radical aquecimento antropogênico do planeta ao longo do século XXI. O artigo de Claudio Angelo, no blog de Ciência da Folha, faz uma boa análise.

Gerar energia por fissão é uma operação cara, tecnologicamente complicada e exige, como lembrou Haroldo Ceravolo no Twitter, eterna vigilância. Tudo isso são preços que o Japão e outros países que mergulharam de cabeça no átomo, como a França e a Bélgica, podem pagar. Não é, como muito luddita tem dito por aí, uma energia que deva ser banida por ser inerentemente insegura. Quem falhou em Tchernobil não foi um reator, foi a União Soviética. O Japão usa essa tecnologia há mais de 40 anos e foi preciso o quinto maior terremoto da história para causar seu primeiro acidente nuclear.



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Carvão, o barato que sai caro

Luana Caires
02.03.2011

O uso do carvão gera um gasto de 345 bilhões de dólares para a economia americana, foto: Arnold Paul

Um estudo realizado pela Harvard Medical School sobre o ciclo de vida completo do carvão mineral concluiu que o custo real para o Estado da energia gerada por esse combustível é quase três vezes maior do que se costuma afirmar, o que torna as fontes eólicas e solares muito mais competitivas. Além do impacto ambiental da extração e da combustão do carvão – que libera uma quantidade enorme de gases estufa –, a pesquisa contabilizou também os problemas de saúde causados pela sua produção e pelo seu uso.

Hoje, 45% da energia dos Estados Unidos provém da queima do carvão. Seus defensores argumentam que, por ser uma fonte barata, ele permite a produção de energia por um custo operacional baixo. Mas as implicações econômicas do seu uso vão muito além do preço que os americanos pagam pela eletricidade. Segundo dados da The American Lung Association, a poluição gerada pelas usinas termoelétricas é responsável por quase 10 mil hospitalizações e mais de 20 mil ataques cardíacos por ano no país. Além disso, ela causou mais de 13 mil mortes prematuras em 2010. Só na região de Appalachia, em Virginia, onde os pesquisadores realizaram os seus estudos, desde 1900, quase 100 mil mineiros foram mortos em acidentes durante a extração e mais de 200 mil deles morreram de Antracose, uma lesão pulmonar.

De acordo com estimativas de Paul Epstein, um dos autores do estudo, a utilização desse combustível fóssil gera um gasto com problemas de saúde e complicações decorrentes da poluição de 345 bilhões de dólares por ano para a economia americana. E essa despesa não é paga pelas usinas, mas pelos cidadãos. Se esse valor fosse absorvido pela indústria termoelétrica, o preço do kilowatt/hora da energia produzida a partir de carvão, que hoje custa cerca de 12 centavos, sofreria um aumento de quase 18 centavos, se tornando uma das tecnologias mais caras do mercado.

E o seu custo pode ser ainda muito maior do que os números do relatório sugerem. Epstein afirma que, ao quantificar os danos ecológicos e para a saúde, eles deixaram de analisar aspectos importantes – como os impactos dos metais pesados e outras toxinas nos ecossistemas. Uma das recomendações da pesquisa é que  o uso desse combustível seja progressivamente abandonado e que sejam usadas análises dos custos do ciclo de vida completo das tecnologias disponíveis para orientar o desenvolvimento das políticas energéticas.



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Nova pesquisa exclui gás natural das alternativas limpas

Luana Caires
11.02.2011

Gás natural: risco de deixar de ser mocinho e passar a vilão do efeito estufa, foto: Marcos Gonzales

Análise do ciclo de vida feita pela Environmental Protection Agency (EPA) colocou em cheque a suposição de que esse combustível seja uma solução rápida e fácil para as mudanças climáticas. Até agora, imaginava-se que ele produzisse 50% menos gases do efeito estufa do que o carvão. Mas os novos resultados apontam que, considerados os vazamentos de metano e outros poluentes liberados durante a sua extração e bombeamento para as usinas, o gás natural é somente 25% mais limpo.

O gás natural tem vantagens ambientais. Sua queima produz menos óxidos de nitrogênio e dióxido de carbono do que a do carvão e do óleo. No entanto, de acordo com o estudo, por ano, bilhões de metros cúbicos de gases do efeito estufa — equivalente às emissões de 35 milhões de automóveis — escapam por válvulas de tubulação mal vedadas ou chegam à atmosfera por queima incompleta. Durante a extração, só as emissões de metano equivalem a 20% do total causado pelo homem, segundo estimativas do Banco Mundial.

De fato, essa liberação de metano é o mais preocupante. Considerava-se que ele tinha um impacto 21 vezes maior no aquecimento global do que o dióxido de carbono. Mas dados recentes da Universidade de Cornell especulam que essa proporção pode chegar a 72 vezes.

Ainda que todas as más notícias estejam corretas, é preciso ter em conta que uma redução de poluentes da ordem de 25% sobre o carvão não é uma vantagem desprezível. Se os processos de extração e bombeamento melhorarem essa diferença positiva volta a crescer.  Assim, o gás natural ainda pode ser importante na transição para uma economia menos intensiva em carbono. Mas à luz dos novos dados, é preciso olhá-lo com mais cautela.



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