Recife: Ovos da tartaruga cabeçuda não eclodem

Celso Calheiros
15.04.2011


 
Eles foram cobertos de atenções, receberam acompanhamento permanente e criaram grande expectativa. No entanto, os 126 ovos postos pela tartaruga cabeçuda (Caretta caretta) na Praia de Boa Viagem, a mais urbana do Recife, não eclodiram. A professora Rosilda Barreto, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), transferiu-os todos para os laboratórios do departamento de veterinária, onde tenta entender o resultado negativo realizando exames citológicos e culturas para revelar bactérias e fungos. (Acima, veja o vídeo que mostra o resgate dos ovos, depois de exaurida com folga a sua “data de validade”.)

Mesmo antes dos resultados, a serem divulgados no fim de abril, Rosilda levanta uma hipótese para a frustração: “Foi muito estresse para o animal”. Antes de a tartaruga conseguir sair do mar, ela fez outras tentativas, mas foi levantada da areia e devolvida ao mar pelos banhistas, porque pensaram que se tratava de encalhe. Quando conseguiu chegar à areia, foi cercada e não alcançou a vegetação de restinga, onde os quelônios – termo que engloba as espécies de tartarugas, cágados e jabutis — costumam enterrar seus ovos, explica a professora da UFRPE.

Como a postura foi feita na faixa de areia que é atingida pela maré alta, o pessoal do Projeto Tamar transferiu os ovos para uma área segura na praia, no dia 22 de fevereiro, e instruiu como protegê-los. O ninho foi cercado de cuidados, avisos e um toldo reduziu a incidência do sol. Próximo a ele, instalaram-se barracas com informações sobre as tartarugas marinhas e um voluntário do Ibama, Adriano Artoni, montou acampamento para proteger os ovos com ajuda de guardas municipais.

Por ter participado de todo o processo e acompanhado, de perto, os mais de 60 dias aguardados para a eclosão, Adriano foi quem mais sofreu com o desenlace da história. “É muito triste. Eu queria ajudar as tartaruguinhas a chegarem ao mar”, lamentou.

De qualquer forma, Adriano continua trabalhando. Ainda como voluntário, também acompanha outros ninhos de tartarugas feitos mais ao sul, nas praias de Piedade e de Candeias, no município vizinho ao Recife, Jaboatão dos Guararapes. Todas as três, Boa Viagem, Piedade e Candeias ficam mesma faixa de areia.

A identificação de mais de dez ninhos no litoral pernambucano não é uma novidade, conta Rosilda. Embora o site do Projeto Tamar não identifique o litoral pernambucano como entre os preferidos das tartarugas marinhas, “todo o litoral brasileiro pode receber ninhos”, afirma a professora.

A boa notícia é que a frequência com a qual as tartarugas têm escolhido as praias pernambucanas para se reproduzir pode indicar que elas “não são muito poluídas”, especula Rosilda. Por outro lado, pode ser sinal de menos tubarões nas águas da região, uma vez que são predadores naturais das tartarugas.

Ninguém precisa comemorar o “não muito poluídas”. Parte da rotina do laboratório de Rosilda está na recepção de tartarugas mortas. “Normalmente chegam engasgadas por canudinhos, pequenos pedaços de plástico, copos descartáveis e outras formas de lixo que as pessoas largam na areia”, alerta. Quanto a ausência dos tubarões, a professora da UFRPE explica que o fenômeno pode ser sazonal. Os peixes costumam frequentar essa parte do litoral pernambucano quando a água fica mais turva, nos meses de maio, junho e julho.
 
 
Leia a 1a parte da história: Tartaruga desavisada põe ovos na praia mais famosa de Recife
 



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Recife: bairro da Bomba quer fazer um carnaval limpo

Celso Calheiros
04.03.2011

Preparando a folia e a limpeza, foto: Celso Calheiros

O bairro da Bomba do Hemetério, no Recife, se preparou como poucos para o Carnaval. Na verdade, a Bomba virou a novidade do Carnaval do Recife e quer fazer bonito em duas frentes – cultural e ambiental. O bairro é endereço de mais de 50 agremiações de cultura popular. Mobilizado, pressionou a prefeitura e conquistou um polo de Carnaval no bairro. Terá núcleo e palco, com atrações locais se apresentando junto com artistas consagrados, como Jorge Aragão, por exemplo.

A história do meio ambiente começa antes, em abril, quando líderes comunitários gestores do Programa Bombando Cidadania, iniciativa do  Instituto Walmart, idealizaram uma ação sócio-ambiental para o bairro, com o foco no lixo. Através do apoio técnico do Instituto de Assessoria para o Desenvolvimento Humano (IADH), foi desenvolvida uma Agenda 21 Local – na sua primeira etapa, um programa de sensibilização da comunidade para o principal problema ambiental do bairro, o destino dos resíduos sólidos.

Carnaval agendado e planejamento pronto, o passo seguinte é fazer uma festa memorável e limpa. Os líderes comunitários criaram tarefas, definiram os responsáveis por cada uma e estabeleceram um calendário. Primeira ação: articular com o comércio local a doação de tonéis, luvas, descartáveis, sacos de 100 litros para distribuir pelos locais de concentração e para os catadores de recicláveis. Depois, mobilização para se criar uma sinalização, com frases de efeito do tipo “Eu quero a Bomba limpa. E você?”. Também vão articular com os catadores para informar sobre a proibição de se utilizar o trabalho infantil, além de doar sacos grandes, fornecer equipamentos de proteção individual (EPIs) e camisetas com slogans positivos. Na pauta estão previstas conversas com os moradores de casas próximas aos focos de carnaval, para que eles coloquem as lixeiras da casa do lado de fora, para reforçar a oferta de um local certo para o lixo.

Bairro com 12.500 moradores, com 43% na classe C e 38% na classe D, conforme levantamento realizado em 2008, a Bomba do Hemetério também é um celeiro da cultura popular. O bairro é casa de mestres de coco, escolas de samba, troças carnavalescas, grupo de caboclinhos, bois, ursos, grupos de maracatu, de afoxés e tantas outras manifestações de origem africana. A região também passou a divulgar sua culinária regional. Tudo estará reunido como atração para turistas ou recifenses que chegam para conhecer diferentes manifestações do Carnaval na cidade.

Tudo correndo como o planejado, o Carnaval comprovará uma tese da coordenadora do projeto Agenda 21 Local, Mariana Melo, consultora do IADH. “A parceria entre o ambiental e o cultural dá certo”, garante. Ela, por exemplo, fomentou diferentes formas de sensibilização da comunidade através de peças de teatro, criação de grupos infantis de música com instrumentos reciclados, chamamentos para mutirões com encenações e vê o resultado do trabalho em diferentes atos. Um dos últimos foi a conquista, através de negociações diretas da comunidade com a empresa municipal responsável pela limpeza urbana, de um compactador de lixo dentro da comunidade e a substituição de caminhões de lixo por carros menores, mais adequados para andarem pelas estreitas vias da Bomba do Hemetério. Por essas e outras, faz sucesso o bordão que a comunidade forjou: “O que é da Bomba é bom!”



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Tartaruga desavisada põe ovos na praia mais famosa de Recife

Celso Calheiros
23.02.2011


 
Dia de sol, praia cheia de gente e movimento e, sem que ninguém esperasse, sai do mar uma tartaruga cabeçuda (Caretta caretta). Indiferente aos gritos de “não mexe nela, não mexe aí”, a tartaruga marinha se arrasta pela areia, cava um buraco com a dificuldade de quem possui patas para nadar, põe uma quantidade de ovos estimada em 150, tapa o buraco e volta para o mar.

Não é cena de filme, embora toda movimentação tenha sido gravada e postada no YouTube. O cenário é urbano, tudo se passou em Boa Viagem, a mais movimentada praia do Recife. Estavam todos lá: banhistas sob o sol das 13h30, argentinos de passagem pela cidade, crianças que brincavam por perto, vendedores da barraca de coco e até mesmo um policia militar em ação – a manter os curiosos afastados. Todos foram pegos de surpresa com a novidade.

O ninho da tartaruga se transformou no assunto do dia, a partir do fim de janeiro. Em teoria, o litoral pernambucano não faz parte dos pontos de desova das tartarugas marinhas, mas desde que a cabeçuda de Boa Viagem fez sua aparição, outras quatro também desovaram em Piedade e em Candeias, praias vizinhas a Boa Viagem, em Jaboatão dos Guararapes. Foram desovas inesperadas.

De acordo com o Projeto Tamar, as cabeçudas têm hábito de desova no litoral dos estados do Espírito Santo e da Bahia ou no Rio de Janeiro e em Sergipe. Mas também é comum aparecer tartaruga onde não é esperada. As tartarugas de couro (Dermochelys coriace), por exemplo, são frequentadoras do litoral capixaba. No ano passado, algumas delas fizeram desova no Delta do Parnaíba, no Piauí. Sob os cuidados de voluntários e pesquisadores, as tartaruguinhas nasceram dias depois.

Adriano, ambientalista voluntário e candidato a participante do Big Brother, foto: Celso Calheiros

A união entre voluntários e pesquisadores está sempre por perto dos ninhos de tartaruga, da mesma forma que curiosos. É assim no ninho da cabeçuda, em Boa Viagem. O primeiro a chegar foi Adriano Artoni, com carteirinha de voluntário do Ibama, ele montou barraca, cercou o ninho da tartaruga e se tornou o vigia oficial dos herdeiros da cabeçuda-mãe. Já deu entrevista para as emissoras de tevê, conversa com os jornalistas e também dá explicações para os visitantes do ninho – agora totalmente protegido.

A professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Rosilda Barreto Santos, especialista em tartarugas marinhas esteve local onde o acampamento de Adriano foi instalado. Foi feita uma reunião com a pesquisadora, o secretário do Meio Ambiente da cidade, Roberto Arrais, e técnicos do Ibama. Antes, acreditava-se que o ninho era de uma tartaruga verde (Chelonia mydas). Ao analisar as imagens da postura, Rosilda retificou a impressão: a mãe é uma cabeçuda.

Umas das características das tartarugas marinhas é retornar às praias em que nasceram, 30 anos depois, quando já são adultas. Há três décadas, Boa Viagem não possuía calçadão, iluminação com lâmpadas de vapor metálico de 2.000 Watts e a população não era metade dos mais de 100 mil moradores que tem hoje.

Nesse cenário, o vigilante voluntário veio a calhar. Adriano está full time dedicado às tartarugas. Conta com apoio de policiais ambientais, guardas municipais e até soldados do Exército. Afasta-se em missões de resgate ou para apresentações sobre educação ambiental. Todos os dias acena, conversa ou dá explicações para cerca de cem pessoas que passam pela praia. Nos fins de semana, o movimento é maior e Adriano é alvo de pelo menos 300 banhistas que levam os filhos ou são levados pelas crianças. Todos querem ver o ninho da tartaruga. Perguntam quantos ovos estão lá, quando eles vão eclodir, o que ele está fazendo por ali.

Adriano montando guarda no ninho da cabeçuda, foto: Celso Calheiros

E as novidades não param. Por causa da maré que atingiria altura maior, técnicos do Tamar foram ao Recife para transferir os ovos da tartaruga cabeçuda para uma faixa de areia mais distante da linha da maré. Dia 17, a maré alta atingiria 2,70m, um pico. Antes que os ovos fossem afetados pela umidade, foram transferidos para alguns metros mais longe do mar.

Todos querem saber do ninho e das tartarugas. É quase um reality show da vida animal. A missão de vigia oferece uma oportunidade a Adriano. De porte atlético, óculos espelhados, chapéu de aventureiro, camisa e sunga, o ambientalista voluntário também gosta da atenção. Ele confessa que seu sonho é participar de um Big Brother Brasil.

O narcisismo de Adriano está a serviço da natureza. Para começar, não gosta do lixo no lugar errado. Percebeu essa sua sensibilidade em 1987, quando foi trabalhar em Fernando de Noronha. Lá, não se conformava com a quantidade de lixo que aparecia na praia. Ao trocar ideias com um navegante de longo curso, ficou sabendo que o arquipélago tão procurado pelos turistas também é porto da sujeira que os navios despejam.

Em 1994, Adriano foi morar em Zurique, Suíça. Em terras frias, se aproximou do movimento ambientalista. Conheceu militantes da WWF e aceitou a proposta de, na volta ao Brasil, trabalhar como voluntário na disseminação dos princípios de educação ambiental. Em 2000, voltou para Recife. Comprou um pequeno veleiro hobie cat, redes, arpão e fez uma instalação. No mar e próximo às praias de Piedade, Boa Viagem, Pina, Brasília Teimosa, Olinda, começou a retirar o lixo que boiava. A cada fim de semana, recorda, juntava 300kg. Por mês, reunia mais de uma tonelada.

Adriano é bem preparado para atividades de proteção ambiental. Ele participou de campanhas organizadas pela Coca-Cola, onde adquiriu o conhecimento para a qualificação e quantificação dos resíduos retirados. Fez cursos no Senac, onde aprendeu sobre o direito ambiental (até hoje, carrega uma cópia da Lei 9.605 para o caso de precisar mostrar o que é um crime ambiental), e completou sua capacitação em uma série de cursos ministrados pelo Instituto Tríade, ONG recifense que trabalha em defesa da vida silvestre.

No seu álbum de fotos, está lá ele envolvido no desencalhe de uma baleia, com uma grande carcaça de tartaruga em frente a um dos hotéis mais luxuosos do Recife, descendo de rapel a ponte de ferro no centro da cidade, posando na praia cercado por lixo encontrado na areia. Além disso, também mantém um blog, sempre atualizado com suas últimas proezas.

Entre março e abril, é esperada a eclosão dos ovos da tartaruga cabeçuda. Adriano estará de prontidão na Praia de Boa Viagem. Desde a passagem do secretário de Meio Ambiente, Roberto Arrais, conta com a companhia constante de guardas municipais.

Após as orientações da professora Rosilda Barreto Santos, técnicos da Brigada Ambiental, da Empresa de Limpeza Urbana, providenciaram uma proteção o ninho. Rosilda acredita que a tartaruga cabeçuda ficou tão estressada quando foi cercada pelas pessoas, que colocou os ovos em local inadequado. Para protegê-los, o pessoal da prefeitura criou uma barreira com sacos de ráfia cheios de areia.

Também foi instalado um toldo, para manter os ovinhos protegidos de forte calor. A alta temperatura, explicou Rosilda, estimula o nascimento de fêmeas – e há menos machos na natureza. Outra situação incomum foi a tartaruga ter posto os ovos às 13h30. A professora Rosilda conta que, em geral, as tartarugas cabeçudas escolhem à noite para enterrar seus ovos.

A Prefeitura do Recife aproveitou a concentração e criou uma área de educação ambiental, com foco nas tartarugas marinhas, mas também com informações sobre cobras e jacarés. E como última honraria ao fato incomum, próximo ao ninho, o escultor Oscar Luiz John, 36 anos, criou esculturas de areia especiais.

Depois de tanta atenção, só se espera que as tartaruguinhas nasçam saudáveis e, lépidas, voltem ao mar.



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Recife: decoração de Natal com reciclados

Celso Calheiros
20.12.2010

Árvore de Natal feita com CDs e DVDs apreendidos - Recife 2010

As decorações de Natal cheias de luzes fortes, efeitos mecânicos e enfeites de uso exclusivo para a data são um exemplo de que o lado espiritual da celebração vem perdendo para o comportamento perdulário e consumista que também a acompanha. Nesse aspecto, o projeto de decoração dos principais pontos do Recife, em Pernambuco, se diferencia por tentar usar produtos reciclados e trabalho de estudantes.

Uma árvore de natal com 33 metros de altura flutua no Rio Capibaribe em frente ao Cais da Alfândega. Dia e noite, a árvore brilha. O enfeite gigante foi feito a partir de 200 mil CDs e DVDs apreendidos nas ações da Delegacia Antipirataria. Os discos foram colados de forma que, durante o dia, refletissem a luz solar. À noite, uma iluminação direcionada para a parte lustrosa dos CDs e DVDs faz sua parte.

Em outro ponto do rio, próximo à Ponte Maurício de Nassau, bombas d’água formam uma tela onde serão projetados filmes natalinos. Em volta, 50 bolas iluminadas com lâmpadas LED RGB, de baixo consumo de eletricidade.

Teatro Santa Isabel, Sítio da Trindade, Praça do Entroncamento e Avenida Agamenon Magalhães receberam 522 estrelas coloridas feitas a partir de 65 mil garrafas PETs. Elas estão penduradas em 400 árvores por mais de dois quilômetros de extensão.  As estrelas não são tímidas, chapadas. São volumosas, tem diferentes cores e beleza.

Decoração a base de PET reciclado e iluminação LED

As garrafas PETs recicladas também estão em outros motivos da Praça do Entroncamento. São 75 mandalas em forma de flor, iluminadas com cordão de LEDs. A praça também tem penduradas bolas feitas com uso de CDs e DVDs, que brilham sob a luz de lâmpadas de vapor metálico.

De acordo com a presidente da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife, Luciana Félix, a produção dos adereços natalinos contou com mão de obra de estudantes apoiados pelo município. “As peças de decoração desses locais foram feitas pelos alunos do programa Multicultural da PCR”, conta.

Em outros pontos do Recife, no centro mais tradicional da cidade, e em três pontes (Giratória, Maurício de Nassau e Buarque de Macedo), a iluminação, projetada pela arquiteta Jamile Tormann, é feita a partir de diodos de baixo consumo, que possuem duração dez vezes maior e consumo de energia cinco vezes menor do que uma lâmpada incandescente comum.



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Recife: elevado permitirá preservar manguezal

Celso Calheiros
12.11.2010

Ilustrações: prefeitura do Recife

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Nem sempre as reservas ecológicas de grandes centros urbanos são tratadas com o respeito que merecem. O Recife foi construído sobre aterros em mangues (uma prova são os bairros com nome de ilha, como a Ilha do Leite, Ilha do Retiro, Ilha de Deus) e hoje poucas são as áreas alagadas razoavelmente preservadas. Uma das últimas, na zona Sul do Recife, atrás dos valorizados bairros do Pina e de Boa Viagem, está prestes a ganhar um elevado margeando sua flora. No dia 28 de agosto, a prefeitura lançou o edital para a construção da Via Mangue, uma complexa estrutura viária de 4,5 quilômetros de extensão, que se apresenta como parte das soluções para o trânsito de uma das cidades que sediará os jogos da Copa do Mundo de 2014. A obra prevê vias para carros, pedestres e bicicletas.
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Haverá dois elevados sobre a Rua Antônio Falcão e oito pontes (cinco sobre o mangue) e alça de ligação. O  investimento previsto é de R$ 430,7 milhões e parte dos recursos são do Programa de Aceleramento do Crescimento (PAC). O mangue a menos de 100 metros das praias do Pina e de Boa Viagem  é parte do estuário dos rios Capibaribe, Pina, Jordão, Tejipió e um viveiro natural. A área, ao entanto, sofre forte degradação por ser cercado por construções irregulares que despejam seus dejetos sem nenhum tratamento e por causa do aterramento de suas margens.
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Lá, habitam 992 famílias, muitas sobre palafitas. Faz parte do projeto construir três conjuntos habitacionais e dotá-los de infraestrutura de saneamento. As discussões sobre a Via Mangue são praticamente da mesma época em que começaram os debates para a criação do Parque dos Manguezais, que os elevados contornarão. Espera-se que a Prefeitura do Recife desaproprie 215 hectares de mangue pertencentes à Marinha do Brasil para se integrar aos 307 hectares do mangue – um dos maiores do país em área urbana.
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Recife paga caro para exportar seu lixo

Celso Calheiros
01.10.2010

Clique na imagem e explore o mapa da região do Lixão de Muribeca

Capital de Pernambuco, com seus 1,5 milhão de habitantes é a 9ª maior cidade brasileira. No entanto, não tem lugar adequado para dispor do seu lixo. Costumava jogá-lo no lixão da Muribeca — veja fotos do local. A prática se encerrou após uma ação movida pelo Ministério Público de Pernambuco, que obrigou a Prefeitura a firmar um termo de ajuste de conduta e, a partir daí, utilizar aterros privados dos municípios vizinhos de Igarassu e Jaboatão. A solução saiu cara e, por isso, debate-se construir uma nova central de separação e incineração de resíduos sólidos. A nova proposta inflamou os ambientalistas, porque é próxima de uma área de preservação.

O lixão da Muribeca é uma área insalubre, que fica no município vizinho, em Jaboatão dos Guararapes, próximo a grandes conjuntos habitacionais. Quando a Prefeitura foi obrigada a abandoná-lo, passou a destinar as 2.400 toneladas de lixo, retiradas todos os dias do Recife, para dois CTRs (Centro de Tratamento de Resíduos Sólidos). Um deles foi o CTR-Pernambuco, em Igarassu, distante 25 km da capital, que passou a receber 70% dos seus resíduos. De acordo com Paulo Padilha, diretor da Emlurb  (Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife), por cada quilômetro que uma tonelada de lixo viaja, a prefeitura paga R$ 0,80. Considerando os números brutos, em um cálculo direto, as 1.700 toneladas que seguem esse caminho custam R$33,8 mil por dia ou pouco mais de R$1 milhão por mês. Os 30% restantes são depositados no aterro sanitário ao sul do Recife, no CTR-Candeias, a 10,5 km do limite com o município de Jaboatão dos Guararapes. O mesmo cálculo feito acima resulta, nesse caso, em um custo de R$5,7 mil por dia ou R$173 mil por mês. Juntando os dois centros, a conta de transporte no fim do mês se aproxima de 1,2 milhão de reais.

Para cortar esses elevados custos de transporte, a Prefeitura do Recife aposta na implementação de um projeto privado, apresentado no fim de 2009. Ele criará áreas de separação dos resíduos, que, em seguida, alimentarão uma usina de co-geração de energia – chamada de incineradora pelos críticos. A iniciativa aguarda o licenciamento da CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente) e a segunda audiência pública do projeto está marcada para depois das eleições. Entre os oponentes mais aguerridos, estão os defensores da Mata do Engenho Uchôa, onde está prevista a implantação de uma unidade de seleção dos resíduos. A discussão é boa e a novela promete render. Aguarde as cenas dos próximos capítulos.



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